Schiaparelli abre semana de moda com mergulho no desconhecido
A grife francesa inova em Paris ao trocar tecidos nobres por látex e silicone, criando peças marinhas que resgatam a ousadia de sua fundadora
A abertura da temporada de alta-costura outono-inverno 2026/2027 em Paris foi marcada por um manifesto de desconstrução do próprio processo criativo. No início de julho de 2026, a Schiaparelli inaugurou o calendário da moda com o desfile batizado de O Abismo, uma apresentação que utilizou uma passarela espelhada para fundir céu e terra. Sob a direção artística de Daniel Roseberry, as modelos cruzaram o cenário em um ritmo lento, iniciando a exibição com silhuetas escuras e recortes geométricos que simbolizavam a entrada da grife em um território inexplorado.
A nova coleção surgiu após um período de crise criativa do estilista, que relatou a dificuldade de produzir sob a pressão de sucessos anteriores. Roseberry afirmou ter tentado replicar uma fórmula metodológica baseada em viagens e pesquisas arquitetônicas, mas constatou que o excesso de controle sufocava o resultado final. A virada conceitual ocorreu quando o diretor decidiu abdicar das certezas e se guiar pelo conceito do chamado do vazio, aceitando a frustração e a incerteza como componentes essenciais para a inovação na passarela.
Inovação têxtil e a estética das profundezas
O resultado dessa ruptura metodológica se materializou em uma coleção fortemente inspirada na fauna e na flora marinhas, com foco na experimentação de novos materiais. A Schiaparelli substituiu as sedas e os cetins tradicionais pelo uso inédito do látex e do silicone, que moldaram espartilhos esculturais e jaquetas envernizadas com texturas gelatinosas. Elementos biológicos foram integrados às peças, incluindo jaquetas com formas de tentáculos, bordados de conchas e vestidos com estruturas rígidas que faziam referência a esqueletos de crustáceos.
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Coleção “O Abismo” Schiaparelli 2026-2027 (Vídeo: reprodução/Instagram/@schiaparelli)
O dinamismo visual foi reforçado por efeitos de iluminação integrados diretamente aos tecidos, simulando a bioluminescência de anêmonas e águas-vivas. Próteses corporais aplicadas ao abdômen e às costas das modelos imitavam conchas abertas com pérolas centrais, enquanto rendas reproduziam os padrões de bolachas-do-mar. A paleta cromática contrastou a sobriedade do preto lustroso e o tradicional dourado da grife com tons vibrantes de rosa lagosta, tangerina e verde-menta, além do lançamento de calçados metalizados envoltos em películas de silicone.
Vanguardismo e a gestão do risco criativo
A estratégia de subverter as expectativas do mercado de luxo resgata a identidade histórica da casa, fundada em 1927 por Elsa Schiaparelli. Conhecida pelas conexões com o movimento surrealista e pelo desenvolvimento de peças provocativas, a marca mantém a premissa de unir elegância e extravagância sob a gestão atual. A jaqueta clássica da alfaiataria Schiaparelli, por exemplo, foi reconfigurada nesta temporada para atuar apenas como acessório de acabamento, descentralizando um dos maiores símbolos comerciais da empresa.
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Confecção das peças do desfile (Vídeo: reprodução/Instagram/@schiaparelli)
A apresentação reafirma a visão de que a moda de alta-costura necessita do risco para manter a relevância cultural. De acordo com as notas distribuídas pela equipe de comunicação da grife, os momentos de perda de controle são os que viabilizam o surgimento do novo. Ao transformar a complexidade emocional do desenvolvimento técnico em um espetáculo de forte impacto visual, a Schiaparelli demonstrou que a superação de fórmulas comerciais rígidas continua sendo o principal motor da vanguarda parisiense.
