Normando transforma matéria e identidade em desfile conceitual na Rio Fashion Week

Marca paraense apresenta coleção “Natureza Morta”, que mistura referências da Amazônia com art déco, enquanto exalta matérias naturais e regionalidade

16 abr, 2026
Desfile "Natureza Morta" da Normando na Rio Fashion Week | Reprodução/Instagram/@riofwoficial
Desfile "Natureza Morta" da Normando na Rio Fashion Week | Reprodução/Instagram/@riofwoficial

Nesta quarta-feira (15), a Normando apresentou uma das coleções mais conceituais do Rio Fashion Week 2026 ao levar para a passarela “Natureza Morta”, desfile que propõe uma reflexão sobre o tempo, a transformação e os vestígios deixados pela vida sobre pessoas e objetos. A marca paraense, conhecida por traduzir referências amazônicas em linguagem contemporânea, reforçou sua assinatura autoral em uma apresentação marcada por sofisticação, textura e narrativa visual.

Com direção criativa de Marco Normando e Emídio Contente, a coleção reuniu propostas femininas e masculinas em que a alfaiataria, fluidez e experimentação convivem em equilíbrio. O resultado foi uma sucessão de 35 looks que transitaram entre o rigor da construção e a delicadeza das formas orgânicas, aproximando moda e arte em uma mesma superfície.

Entre a natureza e a geometria

A coleção parte da ideia clássica da natureza-morta para reinterpretá-la em roupas que parecem capturar diferentes estágios da matéria. Esse é o caso das estampas com nomes “Banana Podre”, “Bronze Oxidado” e “Amazônia Oxidada”. Em vez de apenas representar o belo intacto, a Normando também se volta para o desgaste, o envelhecimento e a ação do tempo sobre os objetos, uma proposta aparecida com a apresentada pela Aluf, mas com execução totalmente diferente.

Na passarela, isso foi apresentado em tecidos com aspecto enrugado, volumes assimétricos, superfícies que simulavam marcas do tempo e acabamentos que remetiam à oxidação ou ao ressecamento natural. Ao mesmo tempo, a coleção dialogou com o art déco por meio de linhas estruturadas, recortes precisos e uma certa imponência arquitetônica.


Desfile da Normando na Rio Fashion Week (Vídeo: reprodução/Instagram/@riofwoficial)


Blazers com ombros marcados, vestidos longos de caimento leve, conjuntos monocromáticos e saias com construção escultural mostraram a habilidade da marca em trabalhar contrastes. A rigidez da alfaiataria foi suavizada por tecidos fluidos, enquanto peças delicadas ganharam força com modelagens firmes e proporções ampliadas.

Outro destaque esteve na cartela de cores sóbria e elegante, com tons terrosos, off-white, preto, dourado envelhecido e nuances esverdeadas, reforçando a atmosfera do desfile, que sempre voltava à natureza e à passagem do tempo sobre materiais nobres.

Identidade amazônica sem obviedade

A Normando manteve viva sua relação com a Amazônia, mesmo com referências internacionais e outras históricas, elementos naturais surgiram de forma sutil e sofisticada. O látex amazônico como protagonista e sua maleabilidade, o matapi, armadilha própria para pegar camarão, trançada pelos povos indígenas; as folhas de açaízeiros; as plantas Tambatajá e Tajá; e outras fibras orgânicas que foram reinterpretadas em bordados, aplicações e texturas integrados à construção das roupas da coleção.


Backstage da Normando na Rio Fashion Week (Foto: reprodução/Instagram/@riofwoficial)


A escolha para os protagonistas do desfile reafirma o propósito que os fundadores paraenses Marco Normando e Emídio Contente têm com a etiqueta: ter o Norte como guia principal. Um caminho importante para a moda brasileira é saber que, para ter uma linguagem global, não precisa abrir mão de valorizar as origens, mas se voltar para as oportunidades de criar conceito com pesquisa de materiais e sensibilidade criativa.

Mais do que apresentar roupas desejáveis, a Normando constrói uma experiência visual com significado em um desfile objetivo. “Natureza Morta” fala sobre permanência e mudança, aquilo que envelhece, mas mesmo assim ainda conserva uma beleza. Um significado profundo se considerar que atualmente o consumo é acelerado, as peças descartáveis e as tendências passageiras.

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