Lantink surpreende com coleção impecável após estreia decepcionante
Duran Lantink renova a Jean Paul Gaultier, estilista, uniu truques de passarela e alfaiataria de forma impecável nesta nova temporada de inverno
A incursão inicial de Duran Lantink no universo de Jean Paul Gaultier foi recebida com um ceticismo ruidoso; uma estreia onde o excesso obscureceu o talento, deixando no ar a dúvida sobre a viabilidade dessa parceria. O que se viu no primeiro desfile parecia negligenciar a técnica em favor do choque visual, tornando difícil vislumbrar o potencial que o designer agora, com maturidade, coloca sob os holofotes.
Apresentada neste domingo (08) na PFW, a coleção de Inverno 2026 de Lantink para a maison surge como um movimento calculado de sofisticação. O criador demonstra que suas ideias subversivas não foram silenciadas, mas sim lapidadas sob um novo rigor estético. A inspiração central da temporada é a icônica imagem de Marlene Dietrich empunhando um chicote, figura que serviu de guia para o flerte constante entre a austeridade masculina e a sensualidade feminina.
A desconstrução da alfaiataria
Lantink, recentemente laureado com o Prêmio LVMH 2024, utilizou seu domínio de formas para elevar os códigos da alfaiataria clássica a um novo patamar de complexidade. O jogo de gêneros foi explorado através de conjuntos de paletó e gravata moldados por uma estética western, onde chapéus de caubói surgiam curiosamente integrados aos coletes. A técnica de construção revelou-se em detalhes surpreendentes, como as lapelas de blazers costuradas de forma invertida para esculpir decotes inesperados e blazers ressignificados como saias.
Nesta temporada, o hibridismo de peças também incluiu calcinhas de alfaiataria sobrepostas aos looks masculinos e femininos, trazendo uma camada extra de subversão ao styling. Complementando essa arquitetura têxtil, as golas das camisas foram drasticamente ampliadas, transformando-se em capuzes dramáticos que emolduravam o rosto das modelos com colarinhos estruturados, unindo proteção e dramaticidade.
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Jean Paul Gauntier PFW 2026 ( Foto: Reprodução/Instagram/@voguebrasil)
“Enfant Terrible”
A irreverência de Lantink, que na temporada passada apostou no choque visual das estampas de corpos nus, evoluiu agora para uma abordagem mais lírica e conceitual. Ao substituir a literalidade carnal pela imagem de manequins articulados de madeira, ele elevou o debate sobre o corpo e a roupa. Peças tradicionalmente íntimas foram ressignificadas como sobreposições de alfaiataria, enquanto blazers assumiram a função de saias, provando que o designer domina a arte de desmembrar e reconstruir o guarda-roupa clássico.
A aprovação veio do próprio Jean Paul Gaultier, presente na primeira fila para celebrar aquele que ele mesmo batizou como o sucessor de seu espírito lúdico e audacioso. O desfile provou que Lantink superou a fase da busca pelo “viral” passageiro para se estabelecer como um artífice da forma. Se a estreia deixou dúvidas, o Inverno 2026 as dissipou, consolidando uma estética onde a provocação nunca caminha desacompanhada da excelência executiva.
