Tempestade de 1923 invade passarela da Lacoste
Lacoste une moda e performance na PFW, resgatando a histórica vitória de 1923 sob chuva em uma coleção técnica, fluida e de alta alfaiataria urbana
A nova coleção da Lacoste prova, mais uma vez, como moda e esporte formam o par perfeito. Em sua estreia na Paris Fashion Week, a diretora criativa Pelagia Kolotouros demonstrou como o rigor das quadras pode dialogar com o luxo das passarelas sem perder o fôlego. O ponto de partida para essa jornada não foi apenas o design, mas um episódio épico de 1923: a partida de René Lacoste contra Manuel de Gomar, em Deauville, interrompida por uma tempestade implacável.
Naquele dia, a arquibancada se transformou em um cenário de improviso e proteção. Jornais eram usados para secar o chão, enquanto guarda-chuvas e capas impermeáveis protegiam o público do dilúvio. René venceu em quatro sets sob a chuva, e ali nascia não apenas um campeão, mas a inspiração para esta temporada. Em uma parceria estratégica com a Mackintosh — autoridade escocesa em outerwear desde 1824 — a Lacoste resgatou esses elementos históricos para criar uma alfaiataria técnica de altíssimo nível.
Do caos da tempestade à alta alfaiataria
Apresentado na lendária quadra Philippe Chatrier, no estádio de Roland-Garros, o desfile recontou a trajetória de “Le Crocodile” através de peças que funcionam como verdadeiras armaduras urbanas. O trench coat estabelece o alicerce visual da linha, enquanto o clássico poncho evolui diretamente da icônica camisa polo, transformando-se em uma peça híbrida. Para garantir conforto térmico com a leveza necessária ao movimento, a lã tecnológica adere ao corpo com a precisão de uma segunda pele.
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Coleção Lacoste Outono/Inverno (Foto: Reprodução/Instagram/@mosomagazine)
O jogo de texturas é o que dá ritmo à coleção. O náilon translúcido ganha corpo em volumes acolchoados, alternando entre o brilho do “efeito molhado” e superfícies reflexivas que remetem à luz da tempestade. Em contraponto a esse rigor sintético, o veludo traz um toque de sofisticação acolhedora, acompanhado pelo blazer René, que surge em uma silhueta desestruturada e leve. A colaboração com a Mackintosh brilha em peças multifuncionais: polos que se tornam ponchos, saias trench plissadas e tracksuits preparados para enfrentar qualquer intempéries.
Uma narrativa fluida
Sem distinção de gênero, a proposta foi feita para circular livremente entre a performance esportiva e o asfalto. A paleta de cores é densa e atmosférica, pintando o cenário do jogo: tons de cinza-chumbo e metais escuros dominam a base, enquanto roxos profundos contrastam com o verde Agave — que evoca o frescor da grama após a chuva — e o vermelho Rusty, uma alusão direta ao saibro úmido de Roland-Garros.
Os acessórios finalizam essa história, transformando ícones do tênis em objetos de desejo contemporâneo. Pins de troféus envelhecidos e camisetas Grand Slam dividem o espaço com a icônica bolsa Lenglen, agora renovada com alças de silicone. A criatividade se manifesta em detalhes lúdicos, como a clutch em formato de bola de tênis e capas de raquete em tecido técnico. Até o tempo entra no jogo com relógios digitais de pulseira elástica, unindo a nostalgia daquela vitória de 1923 à praticidade exigida pelo mundo moderno.
Nesta coleção, Pelagia Kolotouros nos lembra que a elegância não reside apenas no traço perfeito, mas na resiliência de quem sabe atravessar a tempestade com estilo.
