Vida e carreira de Elza Soares conduzem documentário inédito com estreia no Festival do Rio
Filme dirigido por Eryk Rocha traz registros inéditos gravados ao longo de oito anos com a própria cantora narrando sua trajetória
A voz inconfundível e potente de Elza Soares volta às telas de cinema para contar sua própria história. O documentário intitulado Elza, dirigido pelo cineasta Eryk Rocha, faz sua estreia mundial na 28ª edição do Festival do Rio, que acontece entre 1º e 11 de outubro de 2026. A obra foi selecionada para a prestigiada mostra competitiva de longas documentais da Première Brasil, considerada a vitrine mais importante do audiovisual brasileiro. O filme utiliza gravações áudio e visuais exclusivas com a cantora ao longo de seus últimos anos de vida, permitindo que a própria artista assuma o papel de narradora de sua trajetória.
Elza Soares morreu em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos de idade, deixando um vazio imensurável na cultura nacional. No entanto, os registros coletados com antecedência garantem que sua presença continue viva e central no novo filme. Essa abordagem afasta a produção da fórmula tradicional das cinebiografias convencionais. Em vez de recorrer prioritariamente a depoimentos de terceiros ou análises de especialistas para reconstituir os fatos, a obra coloca a própria artista no comando das lembranças, reflexões e sentimentos que marcaram sua existência.
Oito anos de registros constroem narrativa em primeira pessoa
A produção do documentário demandou uma convivência de longa data. O diretor Eryk Rocha acompanhou a artista durante oito anos de sua vida. Nesse período, reuniu conversas íntimas, registros inéditos dos bastidores e um vasto material de arquivo que compõe a estrutura central do longa-metragem. O resultado é um retrato profundo e sensível, projetado em 110 minutos de duração, combinando imagens coloridas com sequências em preto e branco.
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Divulgação de “Elza” (Foto: reprodução/Instagram/@gullanemais)
Segundo o material de apresentação oficial divulgado pela organização do Festival do Rio, o objetivo da produção é transformar as memórias, desejos e pensamentos de Elza Soares em uma espécie de diário audiovisual. O longa estabelece um diálogo contínuo entre as vivências da cantora e os grandes acontecimentos históricos do Brasil ao longo de quase um século, conectando a esfera pessoal ao contexto social do país.
A decisão de permitir que a própria protagonista narre suas memórias aproxima o público da mulher real por trás do mito dos palcos. O filme percorre mais de sete décadas de carreira artística, detalhando perdas dolorosas, batalhas pessoais e a incrível capacidade de reinvenção que manteve Elza em pleno vigor criativo até o fim da vida.
Trajetória da cantora se confunde com a história do Brasil
Para o cineasta Eryk Rocha, retratar a vida de Elza Soares é também lançar luz sobre as intensas transformações sociais e políticas vivenciadas pelo Brasil no último século. O diretor destaca que a artista possuía uma capacidade única de iluminar os dilemas e os rumos da sociedade brasileira por meio de sua expressão musical e de suas vivências pessoais.
“Elza Soares é um farol que até hoje nos guia por meio de sua arte e legado. Contar sua história é contar também a história do nosso país. Ter sua voz narrando ELZA é poder, mais uma vez, mergulhar na generosidade desta imensa mulher e artista, é também honrar sua incansável dedicação à música e ao compromisso com tudo o que ela foi e até hoje representa. Estou muito emocionado em compartilhar este filme com todas e todos, e ter a voz de Elza cantando para o Brasil e para o mundo inteiro novamente”, celebrou Eryk Rocha.
Nascida em 23 de junho de 1930, na favela da Moça Bonita, comunidade atualmente conhecida como Vila Vintém, situada no bairro de Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Elza cresceu em uma família muito pobre. Sua infância e juventude foram marcadas por dificuldades severas, fome e perdas familiares precipitadas. Mesmo diante de adversidades extremas, a música surgiu como refúgio e caminho de libertação.
A cantora sempre fez questão de manter e exaltar sua forte ligação com as origens em Padre Miguel. Sua relação de amor com a escola de samba G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel atravessou décadas. Torcedora ilustre e baluarte da agremiação, Elza esteve presente em inúmeros desfiles na Sapucaí. Em 2020, recebeu uma das maiores homenagens de sua vida no Carnaval carioca, sendo o tema central do enredo “Elza Deusa Soares”, que celebrou sua garra, ancestralidade e representatividade.
Carreira marcada pela reinvenção sonora e engajamento social
Projetada nacionalmente no final dos anos 1950, após uma antológica participação no programa de calouros de Ary Barroso, Elza Soares consolidou rapidamente sua posição como uma das vozes mais distintas e impressionantes do cenário musical brasileiro. Com seu timbre rasgado, divisão de ritmo singular e facilidade para improvisos inspirados no jazz, a intérprete transitou pelo samba, pela bossa nova, pelo samba-jazz, pelo rock e pelo hip-hop ao longo de sete décadas de produção contínua.
Há 24 anos, em 25.08.02, Elza Soares esteve na MTV e, em entrevista a Edgard, comentou sobre o processo de produção do álbum “Do Cóccix Até o Pescoço”.
🌳 Material extraído do acervo da Abril pic.twitter.com/anuUDsq7wZ
— A MTV Brasil Que Deu Certo (@amtvquedeucerto) August 25, 2026
Entrevista de Elza para a MTV no lançamento do álbum “Do Cóccix Até o Pescoço” (Vídeo: reprodução/X/@amtvquedeucerto)
Com o passar dos anos, sua obra ganhou contornos ainda mais contundentes de crítica social e denúncia. Elza tornou sua voz um instrumento direto de combate ao racismo, à desigualdade social, à violência doméstica e à discriminação contra a mulher. Essa postura engajada conectou a cantora a novas gerações de ouvintes, especialmente na fase final de sua carreira.
Álbuns aclamados como A Mulher do Fim do Mundo (2015) renovaram sua estética e a colocaram no centro do debate cultural contemporâneo internacional, mostrando uma artista que recusava o comodismo e buscava provocar o público com sonoridades experimentais e letras fortes.
Longa-metragem amplia memória documental sobre a artista
Esta nova produção audiovisual não é a primeira oportunidade em que a vida de Elza Soares ganha espaço no formato documental. Em 2014, o público recebeu o longa-metragem My Name is Now, Elza Soares, dirigido pela cineasta Elizabete Martins Campos, obra que também realizou um mergulho poético e musical na vida e no pensamento da cantora.
O novo documentário de Eryk Rocha, contudo, destaca-se pelo vasto arquivo gravado nos oito anos que antecederam a morte da artista. O material preserva a fala direta e espontânea de Elza, permitindo uma construção íntima e sem intermediários de suas reflexões finais.
Estreia nos cinemas acontece em novembro de 2026
Após a participação na disputa pelo troféu Redentor na Première Brasil do Festival do Rio, o documentário parte para exibição em salas de cinema de todo o país. O lançamento oficial no circuito comercial de salas está agendado para o dia 5 de novembro de 2026.
O filme é resultado de uma parceria entre diversas produtoras de prestígio no cinema nacional. A produção é da Aruac Filmes e da Maria Farinha Filmes, em coprodução com a Globo Filmes e a GloboNews. A distribuição nas salas de exibição brasileiras é comandada em conjunto pela Gullane+ e pela Maria Farinha Filmes.
Quatro anos após sua partida física, o filme Elza proporciona aos espectadores um reencontro essencial com uma das maiores personalidades artísticas da história do país. Através de seus próprios relatos, a obra assegura que a eterna voz do milênio siga no comando da narrativa de sua própria trajetória, reafirmando seu lugar como farol da cultura e símbolo vivo de resistência.
