Renato Russo: parceiros da Legião Urbana falam sobre saudade 30 anos após sua morte
Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos falam sobre os 13 anos de Legião Urbana, as mais de 20 milhões de cópias vendidas e como a poesia de Renato segue tocando gerações
Trinta anos após a morte de Renato Russo, em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos, seus parceiros na Legião Urbana falam sobre o legado do cantor e como sua obra continua tocando gerações. Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, fundadores da banda, relembram os momentos com o vocalista e a importância de sua contribuição para o rock brasileiro.
O legado vivo de Renato Russo
Marcelo Bonfá, baterista e um dos fundadores da Legião Urbana, celebra 78 anos como professor e reflete sobre como Renato segue presente em sua vida. Segundo ele, o vocalista ocupa espaço significativo em seu dia a dia através do reconhecimento dos fãs.
“O Renato ocupa um espaço muito grande no meu ‘presente’. Ele está presente constantemente no carinho dos fãs que cruzo pelas ruas quando tentam me lembrar da importância do trabalho que fizemos juntos na Legião Urbana. Mas eu gosto de lembrar dos momentos felizes que a gente teve e que foram muitas risadas e muito trabalho sério dedicado às nossas ideias”.
Dado Villa-Lobos, guitarrista e fundador da banda, descreve as qualidades que tornavam Renato singular. Para ele, o cantor possuía características que o distinguiam no cenário musical brasileiro.
“Renato era esse cara diferente, especial, magnético, e eu posso dizer, muito generoso e que acreditava no potencial das pessoas e de como a gente trabalhava junto. Ele era esse cara que a gente conhece com aquela voz incrível e com aquela interpretação das canções de um jeito muito especial, aquele alcance vocal. Ele era um cara definitivamente especial mesmo”.
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Integrantes do Legião Urbana (Foto: reprodução/Instagram/ahistoriadamusica)
As canções que marcaram gerações
A Legião Urbana vendeu mais de 20 milhões de cópias entre 1985 e 1997 e produziu dezenas de discos em 13 anos de atividade. O repertório da banda incluía músicas que questionavam o Brasil, como “Que país é este?” do terceiro álbum e a balada “Vamos fazer um filme”, que trazia perguntas profundas sobre a vida.
Renato Russo compôs 158 obras musicais ao longo de sua carreira. Uma delas se destaca pela longevidade: “Tempo perdido” é a música mais tocada e regravada de Renato Russo, com 343 gravações registradas no Ecad, segundo a instituição. O alcance da canção demonstra como sua obra continua gerando desdobramentos decades após sua morte.
Dado Villa-Lobos resume o impacto da banda nestes termos:
“O legado são esses 13 anos de banda que produziu essas dezenas de discos e que tocou as pessoas do Brasil do Oiapoque ao Chuí, leste, oeste, e que até hoje a gente percebe que estamos aí no coletivo universal brasileiro. É a magia da música e é um sonho adolescente que foi realizado de a gente formar uma banda e transformar as pessoas através da sua música”.
Parcerias e amizades que duraram
Leila Pinheiro gravou “Tempo perdido” para seu álbum “Alma” em 1988. Segundo a cantora, o encontro com Renato ocorreu quando ela trabalha no projeto.
“Fui ao encontro do Renato na Ilha do Governador, na casa de uma avó dele. Eu gravava o álbum ‘Alma’ e escolhi ‘Tempo perdido’. Convidei-o para escrever algumas palavras sobre este álbum e ele aceitou de pronto. Este foi nosso primeiro encontro”.
O encontro inicial entre Leila e Renato abriu caminho para uma colaboração posterior. Renato telefonou para Leila perguntando se ela sabia tocar bossa nova no violão. O encontro aconteceu no estúdio da cantora, onde criaram juntos a música “Hoje”.
“Renato me telefonou perguntando se eu sabia tocar bossa nova no violão. Me surpreendeu a pergunta, e chamei-o para vir ao meu estúdio, trazendo a letra nova. Ele chegou aqui, propus meu piano ao invés do violão, e foi surgindo uma melodia para letra chamada ‘Hoje’. Fiz um blues, lento e denso, para uma letra que já falava da partida dele”.
A obra que não cessa
Vários livros sobre Renato foram lançados nos 30 anos que se seguiram à sua morte. Entre eles, “Renato Manfredini Júpiter, As Revoluções Solares do Líder Legionário”, de Mariana Candeias Piky, que analisa a obra pela perspectiva astrológica. Além disso, quatro discos póstumos da carreira solo mantêm vivas suas composições mais recentes.
Uma dessas parcerias ganhou destaque particular. “Mais Uma Vez” é fruto da colaboração entre Renato Russo e Flávio Venturini, gravada originalmente pelo 14 Bis na década de 1980. Relançada no disco “Presente” em 2003, a canção chegou a ser a música mais tocada daquele ano. Os versos sobre o sol voltar amanhã viraram hino de esperança para muitos ouvintes.
Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos seguem reunindo-se em shows que celebram a história da Legião. Em agosto, tocaram o repertório completo do disco “Dois” no Festival C6 no Rock em São Paulo, com André Frateschi nos vocais. O último show do trio reunido havia sido em Santos, São Paulo, em 14 de janeiro de 1995.
Marcelo Bonfá deixa claro sua posição sobre o futuro da marca Legião Urbana:
“A Legião Urbana não existe mais desde 1996 e eu nunca tive e não tenho interesse em usar este nome sem meu querido amigo Renato”.
Os dois parceiros superaram uma disputa na Justiça com Giuliano Manfredini pelos direitos da banda, mas mantêm a integridade em relação ao legado. Para Marcelo Bonfá, nada do que foi feito representou tempo desperdiçado. Conforme resume, a obra de Renato continua tocando corações e mentes, e seu impacto segue vivo nas pessoas.
