Fafá de Belém reúne LGBTs e representantes de várias religiões no Círio de Nazaré
Há 16 anos, a cantora criou a Varanda de Nazaré, evento que emprega 1.500 pessoas e transformou o turismo do Pará
Há 16 anos Fafá de Belém comanda a Varanda de Nazaré, um espaço criado durante o Círio de Nazaré que reúne artistas, lideranças LGBTQIA+ e representantes de diferentes religiões em celebração inclusiva. O projeto gera empregos para 1.500 pessoas anualmente e transformou o cenário turístico do Pará, atraindo visitantes de todo o Brasil para vivenciar a procissão como expressão de identidade local e fé.
A rotina de Fafá durante o Círio é intensa. Acorda cedo, nada no rio, canta para os romeiros e conduz orações enquanto apresenta as tradições do Pará aos participantes. Quando questionada pela revista Quem sobre de onde tira tanta disposição, respondeu com seu característico bom humor: “Eu durmo bem”.
O sentido por trás da criação
Fafá fundou a Varanda de Nazaré com objetivo claro: permitir que convidados de fora do Pará compreendessem o verdadeiro significado da procissão para os paraenses. A seleção de personalidades que participam segue critérios rigorosos, priorizando trajetória profissional e conexão com a cultura local.
“Trago personalidades múltiplas, jornalistas, cantores, teólogos, padres, pais de santo, babalorixá, pastor e drags. Eu trago pessoas por quem eu tenho admiração pela sua trajetória, trago para ver no nosso povo, porque a gente é caboclo e ficamos muito felizes quando olham para a gente”, revelou em conversa com a revista Quem.
O impacto no setor turístico foi notável. Desde o lançamento, espaços similares começaram a surgir há cerca de cinco anos. As contratações para a Varanda iniciam em março, predominantemente com trabalhadores paraenses, gerando demanda expressiva para hospedagem e gastronomia regional.
Fé como identidade do povo paraense
Para Fafá, o Círio ultrapassa o caráter puramente religioso. Ela o compreende como manifestação central da identidade paraense. A devoção a Nossa Senhora de Nazaré é tão profunda que a santa é conhecida familiarmente como Naza, Nazinha ou Nazarezinha.
“A devoção à Nossa Senhora é tão grande que aqui ela é Naza, Nazinha, Nazarezinha. Temos Nossa Senhora como uma entidade distante, mas ela é próxima. E, como ela é próxima, ela permite que a gente tenha uma intimidade muito grande com ela. O profano se mistura ao sagrado, então a cada ano as manifestações vão crescendo mais. Se você quer conhecer o Pará, venha durante o Círio. É a explosão do paraensismo”, afirmou.
Durante a trasladação na madrugada de sábado para domingo e a procissão dominical pela manhã, Fafá permanece na Varanda cantando e mobilizando romeiros. A procissão reúne fiéis puxando uma corda que alcança aproximadamente 400 metros. Ao descrever o estado emocional vivenciado nesses momentos, relatou experiência de difícil tradução em palavras.
“Eu não sei [o que acontece]. A partir da procissão fluvial, eu não estou mais aqui. É muito difícil explicar isso em palavras, entendeu? Porque é muita emoção. Como sou uma pessoa muito sensível, de vez em quando, eu dou uma descolada. Agora, quando começa a transladação, aí não conte comigo. Eu ando, canto, passo, mas tenho muitos momentos onde eu não estou ali, euestou no meio da multidão”, descreveu.
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Fafá de Belém (Foto: reprodução/Instagram/@fafadbelem)
Encantaria, fé celebrativa e perdão
“Eu não arriscaria não estar atento quando tem um homem com chapéu na cabeça por perto. O Boto está aí e a Iara está por aí também. Está todo mundo solto na época do Círio. Aqui é tempo de encantaria, de crendice, de muito afeto e muita alegria. Acho que o diferente do Círio é que é uma fé feliz, é uma procissão que é alegre. Nossa fé pensa no futuro, não se apega ao passado. Ela não está aqui para punir ninguém, ela está aqui para perdoar e seguir em frente”, finalizou em declaração à revista Quem.
Fafá encerra sua reflexão sobre o Círio evocando os elementos místicos que permeiam a celebração. O Igarapé Murutucu, onde por volta de 1700 um caboclo chamado Plácido teria encontrado uma imagem de madeira de Nossa Senhora que desaparecia e reaparecia misteriosamente, hoje abriga a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, centro espiritual da procissão.
