Neguinho da Beija-Flor conta por que não quer mais desfilar pela escola
Intérprete histórico da Beija-Flor de Nilópolis deixa o posto e se dedica a show solo e musical sobre sua trajetória
Neguinho da Beija-Flor deixou o posto de intérprete oficial da Beija-Flor de Nilópolis em 2025, após mais de cinco décadas no cargo. A decisão, segundo ele revelou ao Metrópoles, foi pacífica e motivada apenas pela vontade de passar o microfone para a próxima geração. Agora o sambista foca na carreira solo com show e musical em cartaz.
A saída ganhou contornos mais claros quando Neguinho desfilou no Carnaval de 2026 como baluarte, usando a faixa destinada a personalidades históricas da escola. A experiência o deixou desconfortável.
“Não foi legal. Quer dizer, é um casamento que se desfez depois de 54 anos. Eu me senti meio desconfortável. Eu desfilei com uma faixa de baluarte, mas te confesso que eu não me senti muito bem.”
Neguinho não participou do Desfile das Campeãs naquele ano, consolidando sua decisão de encerrar o ciclo. Ao Metrópoles, reafirmou que o capítulo foi fechado.
“Carnaval, desfile das escolas de samba, já foi. É uma decisão que a gente tomou para sempre”
A volta incômoda
O desfile de 2026 marcou um ponto de inflexão na trajetória do intérprete. Ao calçar a faixa de baluarte em vez do posto que ocupava há décadas, Neguinho experimentou uma sensação inédita: a de não pertencer àquele lugar. A escolha de não integrar o Desfile das Campeãs foi, portanto, mais que uma ausência. Foi um fechamento.
Para Neguinho, a transição para a carreira solo trouxe uma contradição interessante. Ao deixar o posto, esperando ganhar tempo para descansar, viajar e se dedicar à família, o resultado foi oposto: segundo o Metrópoles, a carreira solo gerou dez vezes mais compromissos que os anteriores.
“Sou o primeiro intérprete que saiu do desfile no auge. O único que passou o microfone. Porque os outros, um foi por falecimento, o outro por doença, o outro foi mandado embora”
A afirmação marca um diferencial em sua história. Neguinho não saiu por necessidade ou imposição, mas por escolha.
Novo palco
O show “Neguinho da Beija-Flor Canta Sua História” marcou sua estreia em 4 de setembro no Rio de Janeiro. A produção levará a turnê para São Paulo, Manaus e outros oito estados brasileiros, consolidando sua presença fora do Carnaval.
No palco, Neguinho apresenta aproximadamente 45 músicas e reconstrói as histórias por trás de cada uma delas. É um formato que permite ao público acessar não apenas as canções, mas a memória viva de uma era da escola de samba. Cada música carrega décadas de Carnaval, de celebrações e de identidade coletiva.
Vida no palco
Além do show, Neguinho ganhou uma homenagem maior: o musical “O Neguinho da Beija-Flor” estreia em 10 de setembro no Rio de Janeiro. A produção tem direção de Luiz Antonio Pilar, texto de Aydano André Motta e conta com o ator Izak Dahora interpretando Neguinho.
A peça contém 34 canções, sendo 9 sambas de enredo e 7 números da discografia da Beija-Flor. O resultado é uma narrativa musical que costura sua vida ao ritmo das composições. Segundo o Metrópoles, Neguinho acompanhou um ensaio da produção e saiu tão emocionado que não voltou mais aos ensaios.
“Às vezes até tem hora que eu me belisco para ver se é real essa homenagem”
A emoção não é gratuita. Durante seus 50 anos como intérprete oficial, a Beija-Flor de Nilópolis conquistou 15 campeonatos, consolidando uma era dourada para a escola. Neguinho foi o rosto e a voz daquelas vitórias. Ao deixar o desfile, ele deixa um legado que a própria instituição agora reconstrói cenicamente.
Com o show em turnê e o musical em cartaz, Neguinho segue em ascensão na carreira solo. A transição que parecia ser um repouso tornou-se um novo capítulo, tão intenso quanto os anteriores, mas inteiramente dele.
