Cruzeiro faz história em final épica contra o Corinthians e conquista a América pela primeira vez
Cabulosas buscam empate após sair perdendo por 3 a 0, resistem à pressão das Brabas e conquistam a Libertadores em um roteiro inesquecível em Quito
Há finais que decidem campeonatos. Outras atravessam a história. Na noite deste sábado (31), em Quito, Corinthians e Cruzeiro protagonizaram uma daquelas decisões que parecem desafiar qualquer roteiro: oito gols, uma vantagem de três gols construída pelas Brabas, uma reação que se recusou a terminar e uma disputa de pênaltis para definir quem levaria a América. No fim de uma batalha de 4 a 4 no tempo regulamentar, as Cabulosas venceram por 5 a 4 nas penalidades e conquistaram a Libertadores Feminina pela primeira vez.
A conquista tem uma dimensão ainda maior quando se olha para o caminho percorrido. Em sua primeira participação no torneio continental, o Cruzeiro chegou à decisão, encarou o atual tricampeão e encontrou forças para voltar de um cenário que parecia definitivo. Do outro lado, o Corinthians, dono de seis títulos e em busca do sétimo, viu escapar a possibilidade de ampliar uma das maiores hegemonias da história da competição.
No Estádio Rodrigo Paz Delgado, o Casa Blanca, a final não teve espaço para indiferença. Teve futebol, tensão, talento, erros, coragem e uma reviravolta que ficará marcada na trajetória das duas equipes. A América ganhou uma nova campeã. E o futebol feminino brasileiro ganhou uma decisão para contar por muito tempo.
Gabi Zanotti coloca o Corinthians no caminho do título
O Corinthians não precisou de muito tempo para mostrar por que chegou à decisão com o melhor ataque da Libertadores. Com apenas três minutos de bola rolando, as Brabas construíram uma jogada pela direita, e Gi Fernandes encontrou Gabi Zanotti na área. A camisa 10 apareceu com precisão, cabeceou firme contra o chão e venceu Camila Rodrigues. Era o primeiro golpe alvinegro, e também o centésimo gol de Zanotti com a camisa corintiana.
O gol cedo reforçou o plano do Corinthians: controlar a partida, ocupar o campo ofensivo e fazer a bola circular até encontrar os espaços. O Cruzeiro tentou responder, mas encontrou dificuldades para transformar suas chegadas em perigo consistente. As Brabas tinham mais presença no ataque e pareciam confortáveis com o ritmo da decisão.
Aos poucos, a equipe paulista passou a encontrar ainda mais caminhos para ameaçar. Tamires teve uma boa oportunidade, mas finalizou em cima de Camila Rodrigues. Gi Fernandes também apareceu no ataque, enquanto Duda Sampaio participava da construção das jogadas. O Cruzeiro tentava se reorganizar, mas a pressão corintiana não diminuía.
Aos 41 minutos, a vantagem aumentou. Em uma saída de bola equivocada do Cruzeiro, Vic Albuquerque recuperou a posse dentro da área e serviu Gabi Zanotti. A capitã não desperdiçou: finalizou para marcar seu segundo gol na noite e colocar o Corinthians em uma situação ainda mais confortável.
O intervalo chegou com 2 a 0 no placar. Para o Cruzeiro, era necessário encontrar uma resposta. Para o Corinthians, bastava administrar a vantagem e manter a concentração. Mas a decisão ainda estava longe de terminar.
O terceiro gol parecia encaminhar a taça
A volta do intervalo trouxe um Corinthians disposto a resolver a final de vez. E a impressão de que o título estava cada vez mais próximo ganhou força logo aos três minutos.
Letícia Monteiro recebeu pela esquerda e cruzou rasteiro. Duda Sampaio deixou a bola passar com um corta-luz inteligente, e Vic Albuquerque apareceu para finalizar de primeira, no contrapé de Camila Rodrigues. Um lance de construção coletiva, leitura de espaço e precisão: 3 a 0 para as Brabas.
A vantagem era enorme, o relógio avançava e o Cruzeiro precisava de uma reação quase improvável. Mas a equipe mineira não abandonou a partida. Em vez de aceitar o destino que o placar parecia anunciar, as Cabulosas encontraram no próprio desespero um motivo para continuar atacando.
Aos seis minutos, Byanca Brasil aproveitou uma bola cruzada na área e diminuiu. O gol mudou o ambiente da decisão. Não era apenas uma tentativa de honra: era o primeiro sinal de que o Cruzeiro ainda acreditava.
Pouco depois, a equipe mineira ganhou um pênalti. Vitória Calhau assumiu a responsabilidade e bateu com força, no ângulo esquerdo de Lelê, sem dar chances à goleira. Em poucos minutos, o que parecia uma goleada encaminhada havia se transformado em uma final novamente aberta.
O Corinthians sentiu a mudança de cenário, mas ainda tinha repertório para responder. E respondeu.
Vic Albuquerque amplia, mas o Cruzeiro não desiste
Aos 22 minutos da etapa final, o Corinthians voltou a encontrar espaço. Gi Fernandes trabalhou a jogada e rolou para a entrada da área. Vic Albuquerque chegou finalizando, Camila Rodrigues ainda tocou na bola, mas não conseguiu evitar o quarto gol alvinegro.
Era o 4 a 2. Mais uma vez, o Cruzeiro precisava buscar dois gols. Mais uma vez, a decisão parecia escapar. Mas havia algo de especial naquela equipe: mesmo diante de uma desvantagem que poderia derrubar qualquer adversário, as Cabulosas continuaram procurando o jogo.
Aos 29 minutos, Byanca Brasil cobrou escanteio na medida, e Ketlin subiu para cabecear firme. O gol recolocou o Cruzeiro a apenas um tento de distância e devolveu à partida a tensão de uma decisão continental.
O relógio passou a ser adversário das mineiras. Cada ataque precisava ser aproveitado, cada bola levantada na área carregava a possibilidade de mudar a história. O Corinthians, por sua vez, tentava proteger a vantagem e administrar os minutos finais.
Até que veio o lance que transformou a final em memória.
Já nos acréscimos, aos 45 minutos, o Cruzeiro construiu mais uma chegada pela esquerda. A bola foi levantada na área, e Letícia Ferreira ganhou pelo alto para cabecear firme, encobrindo Lelê. A rede balançou pela quarta vez para as Cabulosas. O placar estava igualado: 4 a 4.
O banco mineiro explodiu. As jogadoras correram para comemorar um empate que, poucos minutos antes, parecia distante demais. Do outro lado, o Corinthians viu uma vantagem de três gols desaparecer. A final que parecia decidida agora seria resolvida nos pênaltis.
Camila Rodrigues decide e Cruzeiro escreve seu primeiro capítulo continental
Depois de 90 minutos de uma decisão que não economizou emoção, a Libertadores seria definida na marca da cal. E, quando a pressão deixou de estar apenas nos pés das jogadoras para alcançar cada detalhe da disputa, o Cruzeiro encontrou em Camila Rodrigues uma personagem decisiva.
As cobranças terminaram com vitória mineira por 5 a 4. A goleira defendeu a batida de Gi Fernandes e assegurou o título inédito para as Cabulosas. O apito final confirmou o que a reação já havia anunciado: o Cruzeiro era campeão da América.
Corinthians e Cruzeiro pela final da Conmebol Libertadores Feminina (Vídeo: reprodução/Youtube/ge tv)
A conquista tem um peso histórico particular. O clube mineiro disputava a Libertadores Feminina pela primeira vez e encerrou a campanha justamente diante de uma equipe que havia dominado as últimas edições. O Corinthians chegou a Quito como tricampeão consecutivo, vencedor em 2023, 2024 e 2025, e maior campeão do torneio, com seis taças. A tentativa de conquistar o sétimo título terminou diante de uma equipe que não aceitou ser apenas coadjuvante.
Com o troféu, o Cruzeiro também garantiu uma premiação de US$ 2 milhões, enquanto o Corinthians ficou com US$ 600 mil pelo vice-campeonato. Mais do que os valores, porém, a conquista representa a entrada definitiva das Cabulosas na história continental.
Uma final para a história do futebol feminino brasileiro
O resultado também reforça o protagonismo do Brasil na Libertadores Feminina. Com o título do Cruzeiro, o país chegou a 15 conquistas em 18 edições do torneio. A taça, entretanto, não ficou com quem já conhecia o caminho até ela. Ficou com um clube estreante, que precisou enfrentar o maior campeão da competição e superar uma desvantagem de três gols em uma final.
Para o Corinthians, fica a frustração de uma decisão que esteve muito próxima de terminar em festa. Para o Cruzeiro, fica uma conquista construída na insistência, na capacidade de reagir e na coragem de continuar acreditando quando o placar parecia não oferecer mais saída.
Em Quito, as Cabulosas não apenas conquistaram uma Libertadores. Transformaram sua primeira participação em uma página histórica, interromperam uma sequência de títulos corintianos e mostraram que uma final nunca termina antes do último lance.
A América tem uma nova dona. E a imagem do Cruzeiro resplandece.
