“O amor é a minha grande bandeira”: Buchecha fala sobre novo álbum, parcerias e a música que atravessa gerações

Após um hiato de mais de uma década, artista lança “Liberta, DJ Vol. 1”, reflete sobre a transição para a carreira solo e celebra a conexão do seu funk melody com os jovens de hoje

24 set, 2026
Buchecha | Reprodução/Instagram/@buchecha
Buchecha | Reprodução/Instagram/@buchecha

Aos 52 anos e com uma carreira marcada por superação e resiliência, Buchecha apresenta seu novo trabalho, Liberta, DJ Vol. 1. Repleto de batidas envolventes e trazendo o melhor do funk melody, o cantor lança um álbum de inéditas após um hiato de 12 anos.

Com lançamento no dia 18 de setembro, o projeto reflete uma nova fase do artista, que se conecta à atual cena do funk por meio de colaborações com nomes como Xamuel, PK, MC GW, MC Maneirinho, Ceejay e Puterrier.

Conhecido por suas composições românticas, que são sua marca registrada desde os tempos de parceria com Claudinho, Buchecha se reinventa e reafirma que o funk que produz continua carregando mensagens marcantes e um legado importante.

Em entrevista exclusiva ao Lorena, o artista abre o jogo sobre o processo de criação, suas inspirações e a maturidade de sua trajetória solo. Além disso, fala sobre a força de sua arte ao continuar relevante e presente na playlist de uma geração que nem era nascida no auge de Claudinho & Buchecha.


Liberta, DJ Vol 1 (Áudio: reprodução/Spotify/Buchecha)


Você já descreveu Liberta, DJ como um encontro entre quem você foi, quem você é e tudo o que ainda quer fazer. Quando olha para o Buchecha de hoje, o que mais mudou em relação ao artista que começou a carreira?

“Eita! Essa pergunta: o que mais mudou do Buchecha do passado para o Buchecha de agora? Eu e o Claudinho, quando a gente começou, tínhamos 17 anos de idade. Hoje, com quase 52 anos, muda a cabeça, muda tudo. Eu acho que, enquanto pessoa, mudou tudo, né? O gosto, a vontade de ficar mais em casa… Eu sempre fui um cara muito voltado para a família, mesmo quando era garoto, quando era guri, e agora sou o dobro disso.

Agora, com relação à profissão, ao trabalho, eu acredito que não tenha mudado tanto, né? Porque eu ainda gosto dos mesmos ídolos, dos mesmos artistas, dos mesmos estilos de música. Acho que não mudou muito nessa questão. Agora, claro que, com aquilo que eu quero dizer, talvez hoje eu tenha um pouco mais de filtro. Pode ser que hoje eu tenha um pouco mais de filtro de como vou abordar um tema, de como vou abordar um assunto para transformar isso em música, né? Mas também é normal, é uma coisa que a gente vai mudando com o tempo, né? A sociedade, de modo geral, vai mudando com o tempo e eu não sou diferente, né? Acho que é isso.”

O que você queria dizer ou fazer musicalmente neste projeto que talvez não encontrasse espaço nos trabalhos anteriores?

“Ah, o que eu queria dizer… Eu sempre disse o que queria dizer, né? Eu nunca fui muito de… Assim, eu nunca passei por esse processo impeditivo, né? No sentido de vir de fora — ditadura, essas coisas todas —, e nem tive empresários ou gravadora que cerceassem muito o meu processo criativo. Como eu sempre fui o compositor da dupla, o Claudinho também sempre foi um cara que vinha comigo, né? Na maioria das composições da dupla, ele sempre vinha comigo, sempre assinou embaixo, digamos assim. Então nunca passei por esse processo de grande impedimento. Sempre gostei de dizer aquilo que eu queria dizer e acho que continuo fazendo isso do meu jeitinho, né?

Eu sempre gostei de falar de amor. A bem da verdade é que o amor é a minha grande bandeira. Seja falando de uma grande separação, de uma grande desilusão, do amor bonitinho, do amor que se coaduna com a eternidade ou com essa utopia da eternidade… Enfim, eu gosto de falar de amor. Acho que o amor justifica melhor a obra de um artista, porque o amor é tudo, né, gente? A gente precisa ter amor em tudo o que faz. Em um arroz simples com feijão, a gente precisa empenhar e botar amor para que saia bem, saia gostosinho, com tempero. Acho que o tempero do amor é o que há.”

O título Liberta, DJ chama atenção. O que essa ideia de “liberdade” representa para você nesta fase da carreira?

“É, então! Muita gente até pergunta: ‘Pô, por que Liberta, DJ?’. Liberta, DJ é nada mais, nada menos do que um jargão da dupla, né? Você pode ver que em todas as músicas… Era muito comum nos anos noventa os artistas se apresentarem, pelo menos no funk era assim: ‘Ah, eu sou o MC Claudinho, sou o Buchecha, estou aqui… Ressuscita, São Gonçalo! Liberta, DJ!’. Então era o nosso grito de guerra.

E isso eu herdei muito do samba, né? Os intérpretes de samba, os famosos puxadores — eu costumo dizer intérpretes —, eles falavam e sempre tinham um jargão, né? O saudoso Quinho, o Neguinho da Beija-Flor, o saudoso Dominguinhos do Estácio e tantos outros… Todos eles têm um jargão, né? ‘Caramba!’, ‘Segura, Marimba!’. E nos nossos melodias eu herdei isso, trouxe para o funk, né? ‘Ressuscita, São Gonçalo! Liberta, DJ!’.

E aí eu coloquei o nome de Liberta, DJ no álbum. Acho que é o título mais propício para este momento. É um momento de liberdade de poder compor, de poder escrever e continuar escrevendo a minha trajetória. Acho que é isso!”


Buchecha faz show no Rio de Janeiro (Foto: reprodução/Getty Images Embed/AFP/PABLO PORCIUNCULA)


Você construiu uma identidade muito ligada ao funk melody e às músicas românticas. Ao produzir esse projeto, houve algo que você fez questão de manter para que ele continuasse tendo a sua identidade?

“Como a gente veio falando lá no início, né? O funk tem muitas vertentes. Tem o funk ostentação; o funk do tamborzão — que é ali do ‘desce, sobe, ela rebola’, mais voltado para a exaltação das mulheres —; tem o funk mais de ousadia/putaria, né, que é o do Catra, aquela coisa de falar do sexo mais aflorado, mais explícito, digamos assim; e tem o funk do Claudinho & Buchecha, do Márcio & Goró, do Teco & Jefinho e de tantos outros, que é um funk que fala de amor genuinamente, né? Sem ser o ‘sobe, sobe, desce, desce’, uma coisa mais poética, digamos assim. O Márcio & Goró faziam muito isso também. Eles eram de uma geração um pouco depois da gente, mas também seguiam por essa linha.

E é isso: gosto de ler livros, né? Então acho que a minha identidade é essa, né? E era a identidade do Claudinho também. Muito embora a gente tivesse outras vertentes no nosso próprio trabalho — como Rap do Salgueiro, Carrossel de Emoções e tantas outras —, primordialmente a gente gostava de falar de amor, sempre gostou de falar de amor de maneira poética. Eu sempre compus com o dicionário, né, gente? Isso não é segredo para ninguém e é uma coisa que eu assumo. O dicionário era meu livro de cabeceira, juntamente com a Bíblia, né? A Bíblia sempre foi o livro da minha vida e é até hoje, acho que é o que me traz equilíbrio como ser humano, como pessoa. Estou em busca dessa perfeição — que cada vez parece que estou mais longe —, mas gosto de ler a Bíblia, principalmente na parte da personalidade e da personificação de Jesus ali. É um livro de que realmente gosto muito. E o dicionário sempre foi o meu grandioso amigo para compor. Então acho que essa é a grande diferença da maior parte da dupla Claudinho & Buchecha.”

Entre as músicas de Liberta, DJ Vol. 1, existe alguma que tenha tomado um caminho diferente do que você imaginava inicialmente ou que tenha te surpreendido durante a produção?

“Eu acredito que todas as músicas, de um modo geral, começam com um olhar. Porque era eu quem começava as músicas, né? Eu que trazia a maioria das ideias — não todas, mas a maioria. Eu já ia com alguma coisa pronta de casa, que tinha começado com os meus filhos, né? Eles começaram junto comigo e tal, e aí a gente levava a ideia para a Musique, para o Humberto Tavares, Junior, John, Stefan, 2F e todos os meninos de lá.

Algumas coisas eu extraía de livros que leio, algumas coisas da cabeça do Sidney, meu filho, ou da Julie, minha filha, ou algumas coisas que eles viram nas redes sociais. Eles são meio TikTokers também, né? São de tudo um pouco hoje, tudo o que a molecada da idade deles vivencia e faz, eles também fazem. Então eles trouxeram muitas ideias também e a gente levava essas ideias lá para a Musique. Todas as músicas tinham um parâmetro e depois iam mudando no meio do caminho à medida que iam agregando outras ideias de outros compositores que fazem parte desse álbum, a gente levava para outro caminho, entendeu?

É o caso, por exemplo, de Surto. A gente começou abordando uma pessoa arrogante, uma pessoa que de repente não ouve ninguém, tem um amor exacerbado de si própria, egóica e tudo mais… E de repente o PK começou a escrever e levou para uma outra esfera, uma outra órbita, né? Ele colocou que a pessoa na verdade não é orgulhosa, é uma pessoa que está em um outro nível sobre aquela outra pessoa de referência, né? Então ela está em outro nível, assim… Foi uma sacada muito legal dele.

Acho que todas as músicas acabam indo para outro lado. Adidas com Nike também acho que o Xamuel levou para outro caminho, sabe assim? E a ideia é essa: acho que você pode convergir, em algum momento pode juntar os mundos, né? Fica uma mistura gostosa e bem bacana pegar os outros olhares, digamos assim, e misturar com aquele primeiro olhar. Acho que é isso que justifica a arte, é a mistura que faz acontecer o segredo, né? Aquele bom tempero que a gente estava falando lá atrás. Acho que é isso.”


 

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“O Bonde Passou” com Mc Maneirinho (Video: reprodução/Instagram/@buchecha)


O projeto reúne você com artistas como MC Maneirinho, Xamuel, Ceejay, MC GW, Puterrier e PK. Como foi entrar no estúdio e perceber que artistas de uma geração mais nova estavam agora dividindo uma música com você?

“Então, isso aí foi uma coisa muito louca, porque as pessoas pensam assim, né? ‘Pô, Buchecha e Puterrier, que louco! Que mistura que vai dar nisso?’. Buchecha e Xamuel também foi uma coisa que chamou muita atenção; Buchecha e PK — apesar de que com o PK eu já tive outras músicas agradáveis, né? —, causa essa surpresa.

Aí tem a participação do meu filho também, que já fizemos outras músicas juntos, ele e a Julie, né? O Ceejay e a Julie estão presentes no meu trabalho já há bastante tempo, né? Eles são compositores de outras obras minhas também, são atores, são dubladores, enfim… Cantam lindamente bem os dois, tanto o Ceejay quanto a Julie. É muito legal ter os meus filhos trabalhando comigo também nesse álbum, estou muito feliz com a participação deles.

Mas voltando lá para essas curiosidades, né? Buchecha e Puterrier… O cara é totalmente ‘louco’, né, digamos assim, enquanto artista. Ele faz uma letra totalmente diferente da que eu sempre fiz do meu trabalho, mas eles respeitaram, cara! Todo mundo que veio para o disco, que veio para o álbum Liberta, DJ, todos eles respeitaram a minha vibe, né? Ouviram as músicas e depois foram ali fazendo as partes deles, mas ficou tudo muito bem. Acho que isso foi uma grata surpresa.

As pessoas podem ouvir tranquilas, não tem nada de mais. Pode ouvir com seu filho, com a sua filha, com a sua família, o vovô e a vovó… Todo mundo pode ouvir o Liberta, DJ, porque o disco está muito bonito, está muito legal, não tem nada de que a gente pudesse se envergonhar. Estou muito feliz e parabenizo todos esses irmãos que estão participando do álbum e fizeram um trabalho lindo comigo. A gente pode se orgulhar e levantar essa bandeira. O Liberta, DJ está um álbum incrível, estou muito feliz e está muito agradável de se ouvir também, né? Eu sou suspeito, gente! Eu sou suspeito, mas vou dizer que podem ouvir sempre.”

A música de vocês continua chegando a pessoas que nem eram nascidas quando alguns dos grandes sucessos foram lançados. O que passa pela sua cabeça quando percebe que essas canções continuam atravessando gerações?

“O legal é isso: o legal mesmo, na verdade, é saber que o trabalho da dupla — o meu trabalho com o Claudinho, Claudinho & Buchecha — atravessou gerações, né? Hoje a gente vê festa de aniversário com a temática da dupla Claudinho & Buchecha. Tem alguns vídeos em que as pessoas me marcam nas redes sociais me mostrando que o filho de 10 anos, 7 anos, pediu para fazer a festa com a temática de Claudinho & Buchecha. Como é que pode? Esse pinguinho de gente não curtiu Claudinho & Buchecha, né?

O Claudinho já nos deixou faz 22 anos. Parece que foi ontem, eu sei, porque ele está muito presente aqui, mas são 22 anos. Então, uma criança de 7 anos pedir para fazer a festa de aniversário com a temática da dupla é uma coisa muito legal e mexe, com certeza mexe muito comigo. Hoje a gente vê nas escolas a nossa música presente, né? Redações com a história da dupla, a trajetória da dupla nas escolas, faculdades… Isso é uma coisa muito legal para mim, porque ver que o trabalho da gente está passando de geração para geração é uma coisa muito louca! Eu nunca imaginei… Aquele menino de 17 anos lá, aqueles dois meninos nunca imaginaram que hoje a gente estaria aqui em 2026 lançando um álbum novo e tendo essa repercussão ainda, sabe? Tendo essa influência nessa nova geração.

E eu não sei até onde isso vai parar, sinceramente. Não sei até onde vai parar, mas também não quero que pare!”


Buchecha fala sobre a morte de Claudinho (Vídeo: reprodução/Instagram/@buchecha/@papocomcle_recortes)


E olhando para o futuro, que tipo de artista você gostaria de continuar sendo?

“Eu me imagino velhinho: 60, 70… Estou com 52, né? Para os 60 falta pouco, passa muito rápido! Mas quero ficar com 60, 70, 80 — até quando Deus permitir — fazendo a dancinha ali, né? Cantando nos bailes, cantando para as pessoas ou pelo menos tendo as músicas cantadas por essas gerações futuras, sabe assim?

Porque acho que esse é o meu maior salário, o meu melhor salário, né? O dinheiro — não vou ser hipócrita — é superimportante, é claro, mas a alegria de receber o dinheiro passa rápido, né? Passa. Você ganha ali e daqui a pouco passou. Mas a satisfação, a alegria de ver que a tua música está sendo cantada pelas gerações, pelas pessoas, literalmente, sabe? E levando alegria em algum momento para as pessoas… Acho que esse é o valor da arte, né? É a função de nós, artistas, também, né? Não é só receber, a gente tem que dar alguma coisa também, tem que devolver para a sociedade. Para além do nosso comportamento ser um comportamento mais ajustado, mais adequado, porque as pessoas estão olhando para nós, né? Então é importante que a gente também tenha essa consciência, esse discernimento de que o que a gente faz pode reverberar, replicar e pode ser muito perigoso também. Então a gente tem, sim, que ter um cuidado com a nossa letra, com a nossa imagem, com o que a gente é, com o que a gente faz.

“E ver o meu trabalho, o trabalho da dupla, perdurando e passando de geração para geração é uma coisa que me apraz demais. Isso me deixa muito feliz, e eu só tenho a agradecer. Agradeço muito a Deus, em primeiro lugar, e a vocês, o público.”

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