Tom Cruise abre o jogo em entrevista à GQ e revela detalhes de sua vida e carreira
Em entrevista à GQ, o ator de 64 anos detalha sua parceria com Alejandro G. Iñárritu e explica por que este é o papel mais desafiador de sua carreira
Tom Cruise, aos 64 anos, concedeu entrevista à GQ Brasil revelando detalhes sobre Digger, seu novo filme com o diretor Alejandro G. Iñárritu. O ator afirma que o papel de magnata do petróleo é o mais desafiador de sua carreira e marca seu retorno a projetos fora de franquias de ação após duas décadas.
Desde seu primeiro filme, Taps, em 1981, quando tinha apenas 18 anos, Cruise não perdeu intensidade nem comprometimento. Para ele, o cinema é mais que uma profissão.
“Fazer filmes não é o que faço. É quem sou”
Raramente concedeu entrevistas longas nas últimas duas décadas, mantendo o foco em suas atuações.
Ver esta publicação no Instagram
Tom Cruise abre o jogo em entrevista à GQ (Foto: reprodução/Instagram/@gq)
A Carreira de Cruise em Digger
O primeiro trailer de Digger traz uma compilação de cenas de atuações passadas de Cruise, mostrando sua trajetória nas telas. Ao longo dos anos, trabalhou com grandes nomes da direção: Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados, Steven Spielberg em Missão: Impossível, Paul Thomas Anderson em Magnólia, Martin Scorsese, Michael Mann e Francis Ford Coppola.
Sobre o novo papel, Cruise é direto ao descrever o desafio que enfrentou.
“É a soma de tudo que sei. Nunca fiz isso antes. Tudo o que fiz, e o motivo pelo qual fiz, foi muito bem pensado”
Ele explica que possui metas e desafios pessoais em cada projeto que assume. Em Digger, isso se intensifica ainda mais.
“Esse aqui é o auge da minha capacidade, quando você olha para o tempo, o ritmo, a linguagem. Tem camada sobre camada de habilidades nessa atuação”
O papel exige não apenas técnica atuação, mas também compreensão profunda de fisicalidade, espaço e silêncio.
Cruise admira Iñárritu desde Amores Brutos. Elogia a precisão do diretor mexicano, descrevendo seu trabalho como um diamante. A admiração é mútua. Durante a entrevista, Iñárritu compara um ator com um espaço sagrado.
“Um ator é uma catedral, um templo inteiro de possibilidades. Se você olhar nos olhos do Tom, esses olhos podem te transportar para o inferno”
O diretor vê em Cruise camadas de experiência e técnica que poucos atores dominam.
Ver esta publicação no Instagram
Tom Cruise abre o jogo em entrevista à GQ (Vídeo: reprodução/Instagram/@gq)
A Origem do Sonho
O sonho de Cruise pelo cinema veio ainda na infância. Sempre precoce, observava pessoas e vidas através dos filmes. Sua infância foi marcada por mudanças frequentes, o que o expôs a culturas e realidades diferentes. Mudou 15 vezes em 16 anos. Nunca frequentou escola de cinema ou teatro, mas aprendeu observando.
Escrevia sonhos em um quadro na parede, mas não era ambição por fama. Queria viajar, conhecer pessoas, explorar o mundo. Começou a estudar nos sets de filmagem, observando cada departamento, cada decisão dos diretores.
Uma anedota de Taps ilustra sua dedicação ao personagem. Cruise raspou a cabeça sem avisar o diretor Harold Becker, que havia dito para ele criar o personagem. Quando Cruise apareceu no set e tirou o chapéu, o diretor reagiu pedindo que o avisasse de mudanças assim.
Sua mãe, do Kentucky, cultivou nele um pensamento que o acompanha até hoje. Ela era respeitosa, gostava de ajudar pessoas e as via bem na vida. Seu lema era deixar algo melhor do que era antes. Cruise levou essa filosofia para tudo que faz: seu quarto, sua sala de aula, qualquer espaço onde estivesse, procurava melhorar. Busca máxima criação com mínima destruição.
Sobre as gerações de espectadores, Cruise esclarece um equívoco. Existe público mais jovem que o conhece principalmente por filmes de ação. Porém, nas premières há gente de três, quatro gerações diferentes assistindo seus trabalhos. A disponibilidade em plataformas como Netflix permite que públicos experimentem seus diferentes tipos de filmes.
Ver esta publicação no Instagram
Tom Cruise abre o jogo em entrevista à GQ (Foto: reprodução/Instagram/@gq)
Filosofia de Carreira
Cruise nega ter planejado sua carreira em torno de grandes diretores. Nunca pensou em ir atrás de Iñárritu, Spielberg, Anderson, Mann ou Kubrick especificamente. Tudo foi evolução natural, um desafio constante de um passo para o outro. As coisas que fez foram muito deliberadas, mas nunca calculadas em função de nomes.
Está sempre explorando novas habilidades, aprendendo técnicas diferentes, se desafiando. Sente fascinação por história e personagem. Suas escolhas refletem essa busca constante por crescimento.
Sua abordagem aos riscos físicos ilustra essa filosofia. Andou de moto até a beira de um penhasco e abriu paraquedas de verdade. Ficou pendurado do lado de fora de vários tipos de avião. Vê a vida como uma aventura, querendo entender pessoas, vidas e culturas em sua profundidade.
Sobre o medo, Cruise é claro: “Não tenho medo da morte. Não é que eu não sinta medo. Não me importo com a sensação”
Entende que a vida traz certezas e incertezas. Seu impulso é transformar incertezas em certezas. Não tem medo de sentir medo. Reconhece coisas que não sabe e não finge saber o que desconhece. Há situações em que quer deliberadamente sentir incerteza.
Ele compara risco físico e risco emocional. Uma conversa profunda com alguém é sua versão do penhasco: entrar em território desconhecido junto com outra pessoa. Gosta dessa dose de adrenalina. Para ele, porém, perigo físico onde pode morrer não é o desafio que o move.
Na filmagem de Digger, essa filosofia ganhou expressão concreta. Iñárritu conta que viu Christopher McQuarrie, frequente colaborador de Cruise em Missão: Impossível, com uma expressão de quem ia ter algo incrívelmente complexo. Em Digger existe uma cena onde Cruise não está arriscando a vida, mas há um balé absoluto na sequência. Cruise conduz a dança inteira.
Se algo falhasse naquela sequência, tudo desmoronaria. Cruise é o sol e todos ao redor são satélites. O elenco inclui Sandra Hüller, Jesse Plemons e Riz Ahmed. A cena foi planejada há meses com 300 figurantes.
Cruise estava em um guindaste durante a filmagem. Se algo falhasse, uma palavra, uma hesitação, já era. Iñárritu comentou sete pontos específicos com o ator. Cruise respondeu sim, entendi, e executou com intensidade absoluta.
O diretor se perguntava constantemente como Cruise consegue entender fisicalidade, espaços, silêncio, grito, agressividade, vulnerabilidade tudo ao mesmo tempo. Cruise sabe dança com câmera. Conhece cada detalhe da técnica. Acertou cada coisa que Iñárritu pediu.
Reflexão final de Cruise sobre tudo que Digger representa: o primeiro trailer do filme é uma montagem de 2,5 minutos sobre sua vida nas telas. Pensa na alegria de poder criar, nas pessoas com quem criou, nos momentos incríveis que viveu. Pensa nos desafios maravilhosos que superou e em poder continuar fazendo filmes.
“Quando olho para Digger, e finalmente, depois de 25 anos, poder trabalhar com Iñárritu, tudo o que eu fiz se encaminhou para nisso”
Sente muita gratidão, lembrando de cada momento enquanto estão criando.
