Habib’s, Casas Bahia e Grupo Toky: entenda por que cresce a lista de empresas em recuperação judicial no país

Donos do Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill reconhecem dívida superior a R$ 300 milhões; empresa tem 2 meses para apresentar plano de reestruturação ou será decretada falência

27 ago, 2026
Loja do Habib's I Reprodução/Instagram/@habibspnz
Loja do Habib's I Reprodução/Instagram/@habibspnz

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial na segunda-feira, 14 de agosto de 2026. A Justiça de São Paulo aprovou o pedido pouco depois. Consta na petição inicial uma dívida declarada de valor não divulgado, mas a empresa reconhece que o total supera R$ 300 milhões. A KPMG foi designada para administrar o processo.

O processo envolve 178 empresas do grupo, incluindo 119 lojas próprias do Habib’s, 26 unidades do Ragazzo e 6 churrascarias Tendall. Também fazem parte da estrutura 10 franqueadoras, holdings e 17 sociedades operacionais. Alberto Saraiva e Belchior Saraiva conduzem a gestão.

As operações mantêm funcionamento regular. As lojas seguem abertas e o atendimento continua normal, segundo informou a empresa. Nenhum anúncio de encerramentos ou demissões foi feito.

Prazos da recuperação

O grupo tem 60 dias para entregar um plano de recuperação judicial. Se não cumprir o cronograma, o processo será automaticamente convertido em falência. O prazo começa a contar do protocolo do pedido.

A KPMG precisa apresentar um relatório preliminar da situação financeira dentro de 15 dias. O juiz Jomar Juarez Amorim, responsável pela decisão, determinou a suspensão de todas as ações e execuções contra as empresas durante o período de reestruturação.

O plano deverá detalhar como a companhia pretende se reorganizar e honrar seus compromissos com credores.


Loja Casas Bahia (Foto: reprodução/ Bloomberg/ Getty Images Embed)


A trajetória até a crise

O Grupo Gennius aponta a pandemia de Covid-19 como ponto de inflexão. O fluxo de consumidores em shoppings e centros comerciais despencou durante o lockdown. A expansão do trabalho remoto reduziu ainda mais a circulação de pessoas em espaços públicos e, com ela, o consumo de refeições fora de casa.

A empresa havia investido em abertura de lojas antes desse período, ampliando custos fixos que depois não conseguiu cobrir com a receita reduzida. A alta progressiva das taxas de juros dificultou o acesso a crédito para financiar operações. Paralelamente, o crescimento dos aplicativos de delivery transformou o modelo tradicional de restaurante e comprimiu as margens.

A onda de recuperações judiciais

O Habib’s integra um movimento mais amplo. Segundo a Serasa Experian, em 2025 foram apresentados 977 processos de recuperação judicial à Justiça, um recorde histórico. Nos quatro primeiros meses de 2026, registraram-se 268 processos, atingindo 602 CNPJs diferentes. Especialistas apontam dois fatores recorrentes: o crescimento da dívida agregada e a restrição de crédito causada pelo patamar elevado dos juros.

No varejo, a escassez de caixa desencadeia um efeito cascata. Fornecedores, receosos do não pagamento, suspendem as remessas. Sem estoque, as vendas desabam. A queda de receita reduz ainda mais a capacidade de caixa, realimentando a crise.

Outras grandes varejistas enfrentam cenários similares. A Casas Bahia está em recuperação com R$ 17,3 bilhões em dívida declarada. A Toky, resultado da fusão entre Mobly e Tok&Stok, pediu recuperação com R$ 1,1 bilhão em dívida. Lojas Marabraz declarou R$ 140 milhões. Americanas está em processo desde janeiro de 2023.

Casas Bahia: magnitude da crise

A Casas Bahia reportou prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, 18 vezes maior que o do mesmo período em 2025. Para além dos R$ 17,3 bilhões declarados, há outros R$ 11 bilhões de dívidas fora do processo. A varejista vive seu pior momento.

Em 2024, a empresa havia feito recuperação extrajudicial, reestruturando R$ 4,1 bilhões com credores. A situação piorou mesmo assim. A Domus, gestora ligada à Mapa Capital, assumiu o controle com 82,11% do capital. Em agosto de 2026, fechou 300 lojas e demitiu três mil empregados.

A estratégia de expansão digital, com parcerias no Mercado Livre, Amazon e Shopee, não conseguiu reverter a queda de receita operacional.

Toky: a fusão sob pressão

A Toky nasceu da união entre Mobly e Tok&Stok em novembro de 2024 e pediu recuperação judicial em maio de 2026. Declarou dívida de R$ 1,1 bilhão. As duas companhias possuem mais de 60 lojas e empregam mais de 2 mil pessoas. A Tok&Stok já havia passado por recuperação extrajudicial antes da fusão.

No segundo trimestre de 2026, o grupo acusou prejuízo de R$ 232,7 milhões, comparado a R$ 88,9 milhões no mesmo período de 2025. Vendas caíram 32%.

O ajuizamento acelerou a deterioração operacional. O impacto na confiança de fornecedores foi imediato e severo.

“O impacto temporário sobre a confiança de fornecedores e parceiros comerciais levou à interrupção do abastecimento e a severas rupturas de estoque no período”.

consta na apresentação de resultados da Toky. Prazos de entrega se estenderam. Cancelamentos de pedidos explodiram. Receita operacional líquida despenhou significativamente.

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