Marina Ruy Barbosa desabafa sobre crescer sob os holofotes
Em entrevista à Marie Claire, atriz reflete sobre imagem pública, maternidade e a busca por personagens que a desafiem após 23 anos de carreira
Marina Ruy Barbosa, aos 31 anos e com 23 de carreira no audiovisual, concede entrevista à Marie Claire refletindo sobre identidade, imagem pública e o desafio de desafiar rótulos construídos ao longo dos anos. A atriz fala sobre personagens complexas como Suzane von Richthofen em Tremembé e Inês em Antártida, que estreia em 17 de setembro com elenco que inclui Lázaro Ramos, Andrea Beltrão e Leandra Leal.
Crescer sob observação constante marcou a trajetória de Marina. Ela passou a infância e adolescência com sua imagem sendo comentada e construída publicamente, uma experiência que a levou a buscar espaço para existir longe do olhar alheio. Para lidar com isso, recorre à terapia, um lugar onde consegue se permitir simplesmente ser, sem precisar performar ou se adequar ao que esperam dela.
Desafiando rótulos
Após mais de duas décadas na profissão, Marina busca acrescentar novas camadas ao seu trabalho. Ela quer surpreender não apenas a si mesma, mas o público que a acompanha há anos. A intenção é clara: quando as pessoas veem seu nome em um projeto, querem que pensem “Nossa, espera, é a Marina?”, desconstruindo a imagem cristalizada que carregam dela.
Os dois papéis recentes exemplificam essa busca por transformação. Suzane von Richthofen, em Tremembé, é uma mulher manipuladora e calculista. Inês, em Antártida, é o oposto: uma cientista que transborda vida, energia e curiosidade. A diferença entre os dois personagens aponta para o alcance que Marina quer demonstrar como atriz.
Interpretrar Suzane exigiu um trabalho emocional específico. Como se trata de um caso real e conhecido, Marina enfrentou a responsabilidade de manter distância entre seu julgamento pessoal e as motivações da personagem.
“Para interpretar Suzane, eu precisava tirar meu julgamento pessoal sobre o que ela fez”.
Essa separação foi essencial para construir a personagem com autenticidade, sem deixar que suas próprias convicções morais contaminassem o trabalho de atriz.
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Marina Ruy Barbosa (Foto: reprodução/Instagram/@marieclairebr)
Inês em Antártida
O filme que estreia em 17 de setembro traz uma abordagem diferente do trauma. Inês é glaciologista, profissão que diz muito sobre seu propósito de vida: estudar as mudanças climáticas, compreender os processos naturais do planeta. Marina quis construir essa mulher como um sol, alguém livre, curioso e expansivo.
Mas a narrativa de Antártida muda quando, na primeira noite de uma recepção, Inês bebe, dança, se diverte. Passa mal, perde consciência, e alguém ultrapassa um limite que não deveria ser ultrapassado. A partir desse momento, ela vive um abismo emocional que a acompanha pelo resto da trama.
Mariana não quis transformá-la apenas em vítima. Sim, ela é vítima de algo que lhe aconteceu, mas é muito mais do que isso. Marina trabalhou com a força que Inês precisa reunir para tentar se reencontrar, a capacidade de resistência e reconstrução que toda pessoa carrega dentro de si, mesmo quando as circunstâncias são as piores.
Antártida aborda temas que continuam atuais. Abuso, relacionamento tóxico, red flags, feminicídio: hoje conseguimos dar nome a coisas que antigamente não enxergávamos ou simplesmente ignorávamos. O filme traz entretenimento, mas também reflexão sobre essas questões que tocam a vida de muitas mulheres.
Espelho e identidade
Com o passar dos anos, Marina aprendeu a olhar para o espelho com menos julgamento. Seu corpo, rosto, cabelo mudam. Ela muda. E isso vai acontecer cada vez mais conforme envelhece, se tudo der certo. As transformações fazem parte de estar vivo, e Marina vê beleza nisso, não defeito. Passa-se muito tempo tentando congelar uma versão de si mesmo, lutando contra algo inevitável.
Os comentários na internet batem e às vezes deixam marca. Seria desonesto da parte de Marina dizer que nada a afeta. Mas hoje ela possui mais ferramentas para escolher o que merece permanecer em seu mundo emocional e o que não merece. Nem tudo exige resposta. Durante muito tempo, sentiu-se obrigada a responder mentalmente a tudo que era dito sobre ela, cada crítica, cada opinião. Agora entende que a opinião de alguém nem sempre necessita de resposta. Às vezes é reflexo da própria vida daquela pessoa, e não dela.
Maturidade e escolhas
Aos 30 anos, Marina começou a parar para refletir e ajustar seus focos. Aos 31, esses ajustes continuam. Ela reconhece mais rapidamente o que faz sentido e o que não faz em sua vida. Tem menos necessidade de explicar algumas de suas escolhas e mais vontade de arriscar por si mesma, por suas vontades e desejos pessoais. Os personagens que escolheu recentemente são mulheres que a encontram nesse lugar de maior clareza e segurança.
Fora dos holofotes
Forae do trabalho, Marina se considera uma jovem idosa de alma em alguns sentidos. Sua válvula de escape é a natureza, lugar onde consegue se reconectar consigo mesma longe das câmeras e da expectativa pública. Cantar também é terapêutico: entre amigos, é a rainha do karaokê, um espaço onde a diversão é genuína e sem filtro.
Neste momento, vive um dia de cada vez, hora por hora. É muito organizada, gosta de saber o que está acontecendo ao seu redor, mas não alimenta fantasia de conseguir controlar tudo. Sua rotina muda completamente conforme os trabalhos que assume. Às vezes tem mais controle sobre sua vida profissional do que sobre a pessoal, e às vezes sente estar devendo um pouco em algum lado.
Amor e relacionamentos
Marrina construiu sua carreira, seu patrimônio e sua identidade própria. Tem orgulho disso e não precisa de ninguém para acrescentar essas coisas ao que ela já é. O que você constrói sozinha, ninguém tira. Por isso, quando pensa em relacionamento, a visão é bem definida.
O amor precisa ser um lugar de encontro, não de preenchimento. Ela precisa estar preenchida de si mesma para ser boa para outra pessoa. Não acha saudável entrar em uma relação esperando que alguém complete o que falta. A ideia que gosta é a de duas pessoas inteiras escolhendo compartilhar a vida.
“Uma relação que cabe na minha vida é aquela em que não preciso diminuir nenhuma parte de mim para que funcione”.
Ela valoriza parceria, admiração, respeito pela individualidade do outro. Mas acima de tudo, valoriza paz. Uma relação sem paz, por mais paixão que tenha, não cabe na vida de Marina.
Maternidade e futuro
Marinna tem muita vontade de ser mãe e formar uma família. É um desejo antigo, mas decidiu priorizá-lo de forma consciente. Aos 20 e poucos anos, enfrentou pressão para ter filhos que gerou comentários conflituosos com um ex. Tentou explicar que se considerava jovem demais, que queria aproveitar sua fase profissional, mas não obteve apoio nessa decisão.
Hoje tem clareza de que não pretende esperar mais uma década para viver essa experiência. A maternidade é parte importante de seus planos futuros, mas em tempo e termos que façam sentido para ela, não para atender expectativas alheias.
Reflexão final
Conforme amadurece, Marina entende visceralmente que a vida não é garantida. Isso muda completamente a forma como olha para as coisas pequenas e grandes. Tem mais consciência do privilégio de estar aqui com saúde, trabalhando com aquilo que ama, rodeada de pessoas que realmente a conhecem.
“Crescer diante do público pode ser muito duro, muito confuso, muito cruel”.
Essas pessoas ao seu lado sabem o que a faz realmente feliz. Conhecem Marina além da tela, além da personagem que interpreta no momento. E isso, para ela, é parte importante da gratidão que sente pela vida que construiu.
