Hermeto Pascoal: músico tem legado reverenciado em seu aniversário de 90 anos

Músico alagoano era multi-instrumentista conhecido por sua inventividade e por transformar objetos do cotidiano em instrumentos musicais

22 jun, 2026
Hermeto Pascoal | Reprodução/Instagram/@hermetopascoal
Hermeto Pascoal | Reprodução/Instagram/@hermetopascoal

O músico Hermeto Pascoal faria 90 anos nesta segunda-feira (22). Apelidado de “O Bruxo”, Pascoal era multi-instrumentista, arranjador e compositor. Conhecido por sua inventividade e por transformar objetos do cotidiano (como chaleiras, brinquedos, panelas e até a fala humana) em instrumentos musicais, Hermeto rompeu barreiras entre o erudito e o popular, deixando um extenso legado musical.

A característica principal de Hermeto era a utilização de uma linguagem que absorvia os ritmos brasileiros, como frevo, baião, choro, além de jazz, música de concerto, ritmos nordestinos e sons do cotidiano com a mesma naturalidade.

Origem

Nascido em 22 de junho de 1936, no município de Lagoa da Canoa, interior de Alagoas, Pascoal passou parte da infância trabalhando no campo e convivendo com os sons dos animais, do vento, das ferramentas e da natureza, elementos que décadas depois apareceriam de forma explícita em suas composições.

O músico nasceu com albinismo, que é uma condição genética hereditária caracterizada pela ausência total ou parcial de melanina, que é o pigmento que dá cor à pele, aos cabelos e aos olhos. Por sua condição, era sensível à luz intensa do sertão, e por isso, passava muitas horas dentro de casa. Isso fez com que desenvolvesse uma relação íntima com instrumentos musicais e com a escuta.

Como autodidata, Hermeto começou a tocar sanfona observando músicos da região e experimentando possibilidades por conta própria. Sem condições de ter um ensino musical formal, ele acabou por não seguir regras rígidas de harmonia ou técnica, desenvolvendo uma compreensão intuitiva da música, baseada na curiosidade permanente e na experimentação.

Início de carreira

Na década de 1950, Hermeto uniu-se a Sivuca e seu irmão, José Neto, dando início ao trio denominado “O Mundo Pegando Fogo”, em Recife, Pernambuco. Após isso, o músico foi para João Pessoa e tocou piano na orquestra da Rádio Tabajara. Morou em Jaguaribe, perto do campo do Estrela do Mar.

Na era dos festivais, Hermeto se juntou com Airto Moreira, Theo de Barros e Heraldo do Monte, formando o “Quarteto Novo”, que gravou apenas um disco. Profundamente nordestino, o álbum, lançado em 1967 pela gravadora Odeon, é um marco da música instrumental produzida pelos brasileiros. O grupo utilizou-se de elementos do jazz moderno e da música nordestina, abrindo espaço para uma geração de instrumentistas que buscava novas possibilidades harmônicas sem abandonar referências populares.


Hermeto Pascoal em apresentação ma emissora americana NBC, em 1976 (Vídeo: reprodução/Instagram/@jazzphotoarchives)


Proximidade com Milles Davis

A colaboração entre Hermeto e o trompetista de jazz norte-americano Miles Davis ocorreu em 1970. Hermeto participou do histórico álbum Live-Evil (1971), no qual tocou piano elétrico, flauta e cantou, além de contribuir com duas composições originais. Levado aos Estados Unidos pelo contrabaixista Ron Carter e pelo baterista brasileiro Airto Moreira, Pascoal conheceu Miles Davis em Nova York.

Miles convidou Hermeto para gravar em seu estúdio, onde registraram duas músicas autorais de Hermeto: “Igrejinha” (creditada no disco como Little Church) e “Nem Um Talvez” (creditada como Selim).

Contudo, as duas faixas compostas por Hermeto foram creditadas a Miles Davis. Em entrevistas, o brasileiro afirmou não se importar em cobrar a autoria na época, considerando detalhes burocráticos sem importância diante da magnitude de tocar com Miles.

Música universal

Hermeto desenvolveu um conceito que chamou de “música universal”, uma filosofia e prática musical que transcende rótulos, gêneros e barreiras. Para o artista, a música é uma linguagem livre, intuitiva e inerente a tudo no universo.

Os pontos da música universal descritos pelo músico são espontaneidade e intuição, integração com a natureza, instrumentos inusitados e ausência de rótulos.

Para Hermeto, a criação não deve ficar presa a regras acadêmicas rígidas. Dentro do tópico de Espontaneidade e Intuição, teoria existe, mas deve servir à expressão sentimental, e não o contrário. Já o conceito de Integração com a Natureza defende que o mundo ao nosso redor está constantemente fazendo música. Não existe separação entre o som do ambiente e o som de uma orquestra.

Em relação aos instrumentos inusitados, a Música Universal quebra a barreira de que a música só é feita com instrumentos caros ou tradicionais. Tudo o que vibra e emite som é um instrumento em potencial. E, por fim, Hermeto rejeita divisões mercadológicas dentro da Ausência de Rótulos, como “jazz”, “música clássica”, “MPB” ou “pop”. Para ele, classificar a música é limitá-la.

O palco é o reflexo prático dessa filosofia. Nesses registros, Hermeto extrai timbres surpreendentes de chaleiras com água, brinquedos e utensílios cotidianos. Longe de ser um mero truque de cena, essa experimentação integra a harmonia de forma natural. O gesto reforça que a verdadeira arte depende da sensibilidade do ouvido, não das ferramentas disponíveis.


 

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Hermeto Pascoal em entrevista para o programa “Espaço Público”, em 2014 (Vídeo: reprodução/Instagram/@tvbrasil)


Discípulos

Hermeto tem muitos admiradores, inclusive alguns que foram seus alunos, não de forma tradicional com turmas. Contudo, sua casa funcionava como uma escola viva 24 horas por dia. Sua famosa casa no bairro do Jabour, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, transformou-se em um verdadeiro laboratório e oficina musical criativa entre as décadas de 1970 e 1990.

Hermeto e seus alunos se reuniam no andar de cima da casa todos os dias, a partir das 14h, tocando por pelo menos 6 horas seguidas. Músicos consagrados como Itiberê Zwarg, Jovino Santos Neto, Carlos Malta, Márcio Bahia e o tecladista Mito Pascoal foram formados nessa “escola involuntária”.

Homenagem de aluno

Um desses discípulos diretos de Hermeto resolveu homenageá-lo. O brasiliense Gabriel Grossi lançou o álbum “Hermeto Universal”, que insere novas dinâmicas e arranjos aos clássicos do mestre alagoano.

O álbum, distribuído ao longo de 14 faixas entre inéditas e releituras, traz uma extensão prática do conceito de “Música Universal” instituído por Pascoal. O projeto é uma parceria entre Gabriel e o pianista francês Laurent Coulondre.

O projeto “Hermeto Universal” ganha os palcos com a parceria entre Gabriel Grossi e Laurent Coulondre. A turnê começa no segundo semestre, passando pelo Brasil e por festivais internacionais de jazz. O público também poderá conferir os bastidores das gravações na Espanha e na França em um documentário inédito, além de uma edição especial em vinil.

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