França protesta por professores e mais recursos

Saiba quais as reivindicações da França e como é o cenário no país em comparação com Brasil; ambos tem problemas de valorização e de condições de trabalho

02 out, 2026
Ao todo, 1027 instituições de ensino foram afetadas pelos protestos | Reprodução/Instagram/@now_canal
Ao todo, 1027 instituições de ensino foram afetadas pelos protestos | Reprodução/Instagram/@now_canal

As manifestações de estudantes do ensino médio e de universidades que ganharam força na França nesta semana colocam no centro do debate a falta de professores, os salários dos servidores públicos e a necessidade de mais recursos para a administração pública.

Embora problemas semelhantes também apareçam no Brasil, os sistemas educacionais dos dois países apresentam diferenças importantes. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que professores franceses e brasileiros enfrentam insatisfação com salários e condições de trabalho, mas por razões e em contextos distintos.

Professores reclamam de salários e condições de trabalho

Na França, um professor da Educação Nacional recebeu, em média, € 3.090 líquidos por mês em 2024. O valor representou alta nominal de 6,4% em relação ao ano anterior e aumento real de 4,3%, descontada a inflação.

O reajuste, porém, não eliminou a insatisfação. Segundo a pesquisa TALIS 2024, apenas 27% dos professores franceses dos anos finais do ensino fundamental estavam satisfeitos com seus salários. No Brasil, o índice foi ainda menor, de 22,3%. A média dos países da OCDE chegou a 38,7%.

No Brasil, existe um piso salarial nacional para professores da educação básica pública. Em 2026, o valor foi estabelecido em R$ 5.130,63 para uma jornada de 40 horas semanais. O piso, entretanto, não corresponde necessariamente ao salário efetivamente recebido por todos os profissionais, já que estados e municípios possuem planos de carreira próprios.


Os protestos se estendem entre os alunos da faculdade e do ensino médio (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Tonny Linke)


Jornada de trabalho também é diferente

A distribuição da jornada ajuda a explicar outra diferença entre os dois sistemas.

Segundo a TALIS 2024, professores franceses em tempo integral trabalhavam, em média, 38,7 horas por semana. No Brasil, a jornada chegava a 40,3 horas. A diferença aumenta quando são consideradas as atividades específicas.

Os professores franceses dedicavam 20,1 horas semanais às aulas, enquanto os brasileiros relatavam 29,2 horas. Na preparação das aulas, eram 7,2 horas na França contra 9,3 no Brasil. A correção de atividades consumia 5,3 horas entre os franceses e 6,1 entre os brasileiros.

Os números não permitem concluir, isoladamente, que professores de um país trabalham mais ou enfrentam menos sobrecarga. A organização e o tipo de atividade também influenciam as condições de trabalho.

O que mais causa estresse

As fontes de estresse também variam. Na França, 62% dos professores apontaram as mudanças nas exigências das autoridades públicas como uma das principais fontes de pressão. Outros 58% citaram o excesso de trabalho administrativo, enquanto 49% mencionaram a necessidade de adaptar as aulas para estudantes com necessidades educacionais especiais.

No Brasil, os principais fatores foram ser responsabilizado pelo desempenho dos alunos, citado por 66%; manter a disciplina em sala, por 64%; e o excesso de correções, por 60%.



Falta de professores está no centro dos protestos

A reivindicação francesa por profissionais para substituir professores ausentes está diretamente relacionada ao funcionamento das escolas. A OCDE aponta que a escassez de docentes pode assumir diferentes formas, como vagas não preenchidas, profissionais sem todas as qualificações exigidas e dificuldade para substituir trabalhadores temporariamente afastados.

No Brasil, 9% dos professores da educação básica pública não eram considerados plenamente qualificados em 2024/25, proporção próxima à média de 9,1% da OCDE. Já a saída de professores plenamente qualificados foi de 10,3% em 2022, contra 1,9% na França no período analisado pela organização.

Os indicadores, porém, não permitem afirmar que existe uma escassez maior em um país do que no outro. A OCDE considera diferentes critérios para medir o problema, incluindo vagas sem preenchimento, saída de profissionais e dificuldade para substituir professores ausentes.

França gasta mais por estudante

Outro ponto importante é o financiamento. Em 2023, França e Brasil destinavam 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) à educação. O gasto por estudante, entretanto, era muito diferente: cerca de US$ 13,8 mil na França, contra US$ 4,1 mil no Brasil, considerando a paridade do poder de compra.

Na França, o orçamento de 2026 para a Educação Nacional teve aumento de € 200 milhões em relação ao ano anterior, além da previsão de quase 5,9 mil empregos adicionais. O governo francês relaciona parte das medidas à redução do número de alunos.

Problemas semelhantes, realidades diferentes

As manifestações na França colocam em evidência questões que também fazem parte do debate brasileiro, como valorização profissional, falta de professores, condições de trabalho e financiamento das escolas.

Os dados, contudo, mostram que os problemas não são idênticos. Professores franceses apresentam maior estabilidade contratual e jornada semanal total menor, mas relatam insatisfação salarial e destacam burocracia e mudanças administrativas entre as principais fontes de estresse.

No Brasil, a jornada é ligeiramente maior, o tempo dedicado às aulas também é superior e a satisfação com os salários permanece baixa. A proporção de contratos permanentes é menor e a saída de profissionais plenamente qualificados aparece com maior frequência no indicador analisado pela OCDE. Markdown colado

Assim, embora França e Brasil compartilhem desafios na educação, os protestos franceses refletem necessidades específicas de seu próprio sistema. A comparação mostra que aumentar recursos é apenas uma parte da discussão: salários, estabilidade, condições de trabalho, distribuição de professores e estrutura das escolas também determinam a qualidade do ensino.

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