Ucrânia tem uso de sistema de satélites limitado pela Casa Branca

Segundo fontes ouvidas, a ordem dos EUA restringiu serviço militar da SpaceX usado para comunicação no campo de batalha e operações com drones na Ucrania

16 out, 2026
Medida afetou operações com drones e ocorreu em meio à pressão de Donald Trump para que Kiev interrompa ataques a refinarias russas | Reprodução/Instagram/@radiobandnewsfm
Medida afetou operações com drones e ocorreu em meio à pressão de Donald Trump para que Kiev interrompa ataques a refinarias russas | Reprodução/Instagram/@radiobandnewsfm

A ordem para restringir um sistema de satélites usado pela Ucrânia nas comunicações do campo de batalha e em operações com drones partiu de dentro da Casa Branca, segundo três autoridades ouvidas pela agência de notícias Reuters. A decisão afetou o funcionamento do Starshield, serviço da SpaceX utilizado pelas Forças Armadas ucranianas na guerra contra a Rússia.

A informação foi divulgada nesta quinta-feira (15). As fontes, dois funcionários americanos e um funcionário ocidental informado sobre o assunto, não identificaram quem tomou a decisão nem quem ficou responsável por executá-la.

Pentágono recebeu ordem para limitar o Starshield

Segundo as fontes ouvidas pela Reuters, integrantes da cúpula do Departamento de Defesa dos Estados Unidos receberam uma mensagem informando que o funcionamento do Starshield deveria ser limitado.

O Pentágono é o principal cliente do serviço, desenvolvido pela SpaceX para atender a governos e operações de segurança nacional. O sistema utiliza a infraestrutura de satélites Starlink como base.

Questionado sobre a ordem, um alto funcionário americano afirmou que “o presidente nunca fez tal pedido”, em referência a Donald Trump. A Casa Branca, porém, não respondeu se outros integrantes do governo solicitaram a restrição. O Departamento de Defesa e a embaixada da Ucrânia nos Estados Unidos também não se manifestaram sobre o assunto.

Autoridades ucranianas relataram nesta semana que receptores do Starlink usados pelos militares deixaram de funcionar quando instalados em objetos em alta velocidade. A falha prejudicou o desempenho de drones que dependem dos equipamentos para seus sistemas de orientação.


O Starshield é a versão militarizada do Starlink da SpaceX (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Kent NISHIMURA)


Na quinta-feira, uma fonte do Ministério da Defesa da Ucrânia afirmou que os receptores voltaram a funcionar durante o deslocamento, mas apenas em velocidades de até 160 km/h.

Após a imposição das restrições, representantes ucranianos telefonaram na terça-feira (13) e na quarta-feira (14) para integrantes de alto escalão da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Pentágono em busca de explicações. Segundo um alto funcionário ucraniano, Kiev recebeu a informação de que a decisão havia partido da Casa Branca.

EUA pressionam Kiev a interromper ataques a refinarias russas

A restrição ao sistema de comunicação ocorreu em meio à pressão de Trump para que a Ucrânia interrompa os ataques contra refinarias russas. O presidente americano atribuiu a essas ofensivas parte da alta dos preços da energia, que afeta as perspectivas eleitorais do Partido Republicano antes das eleições legislativas de novembro.

Especialistas, no entanto, apontam a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã como um dos principais fatores por trás da elevação dos custos energéticos. O conflito provocou ataques iranianos a instalações de energia e comprometeu a circulação de embarcações pelo estratégico Estreito de Ormuz.

O Starshield foi desenvolvido pela SpaceX para clientes governamentais e de segurança nacional, especialmente o Departamento de Defesa americano. Embora utilize a infraestrutura do Starlink, o serviço tem aplicações militares específicas.

Segundo autoridades ucranianas, as restrições dificultaram missões contra forças russas e estruturas logísticas em territórios ocupados. As limitações também reduziram a velocidade dos drones interceptadores usados para abater drones russos do tipo Shahed.

Na quarta-feira, Elon Musk, proprietário da SpaceX, afirmou que o Starshield pertence ao governo americano e é controlado por ele. Por isso, segundo o empresário, eventuais limites de velocidade ou de utilização são definidos pelas Forças Armadas dos Estados Unidos ou pelo presidente.


Zelensky ao lado de Trump em Nova Iorque (Foto: reprodução/Brendan SMIALOWSKI)


Relação entre Washington e Kiev se deteriora

As tensões entre os governos americano e ucraniano aumentaram após uma reunião realizada em Miami, em 9 de outubro, com representantes dos dois países, autoridades europeias e integrantes do Banco Mundial.

Durante o encontro, Jared Kushner, genro de Trump, e Steve Witkoff, enviado do governo americano para o Oriente Médio, adotaram um tom duro com a delegação ucraniana, segundo uma pessoa familiarizada com a reunião.

Os representantes americanos demonstraram insatisfação com a continuidade dos ataques ucranianos contra refinarias russas, apesar dos pedidos de Washington para que Kiev interrompesse as operações.

A delegação também explicou a decisão dos Estados Unidos de fechar um acordo para receber diesel da Rússia. Segundo o relato, a Casa Branca esperava que a medida ajudasse a tornar Moscou mais flexível nas negociações de paz.

O acordo prevê o fornecimento de mais de 2,25 milhões de barris de diesel aos mercados americano e internacional. A iniciativa, porém, provocou críticas de parlamentares dos Estados Unidos, que afirmam que as compras podem gerar receitas para Moscou sem garantir concessões do presidente russo, Vladimir Putin, para encerrar a guerra.

Nos dias seguintes, Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, trocaram críticas. Zelensky classificou como “fraca” a decisão americana sobre o acordo de diesel com a Rússia. Trump, por sua vez, defendeu a realização de eleições na Ucrânia e pediu a saída de Zelensky do poder.

Nos bastidores, autoridades americanas também ameaçaram interromper o compartilhamento de informações de inteligência sobre lançamentos de mísseis russos, dados que ajudam Kiev a antecipar e impedir ataques. A Reuters já havia noticiado essa possibilidade.

Na terça-feira (13), contudo, Trump afirmou que os Estados Unidos continuavam compartilhando informações de inteligência com a Ucrânia. A declaração ocorreu em meio à deterioração das relações entre os dois governos e às dúvidas sobre a continuidade do apoio militar americano a Kiev.

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