Estudo alerta para avanço de calor extremo durante noites e madrugadas nos próximos anos
Pesquisas mostram que temperaturas elevadas podem ocupar até 21 horas dos dias quentes no fim do século, afetando principalmente países de baixa renda
A elevação contínua das temperaturas no planeta ameaça transformar não apenas os picos de calor durante a tarde, mas também o comportamento de todo o ciclo de 24 horas. Em um cenário de altas emissões de gases de efeito estufa, dias considerados quentes podem registrar mais de quatro horas adicionais de temperaturas extremamente elevadas entre 2070 e 2099, na comparação com o período de 2001 a 2023. A conclusão vem de um estudo publicado nesta segunda-feira (10) na revista científica Nature Climate Change, que analisou a variação horária das temperaturas globais e projetou os impactos do aquecimento nas próximas décadas.
A divulgação da pesquisa coincide com um novo episódio de forte calor na Europa. No Reino Unido, o serviço nacional de meteorologia e clima, Met Office, prevê uma nova onda com termômetros alcançando até 36°C na quinta-feira (13), em partes da Inglaterra. O evento ilustra a preocupação central do levantamento: além de medir até onde os termômetros sobem, os cientistas buscam compreender por quanto tempo o calor extremo permanece contínuo no cotidiano da população.
Resolução horária revela picos ocultos
A grande maioria das pesquisas sobre mudanças climáticas utiliza indicadores diários tradicionais, como médias, máximas e mínimas. O novo estudo inovou ao examinar os dados registrados hora a hora em diferentes partes do planeta entre 1981 e 2023, combinando esse histórico com projeções climáticas até o fim do século XXI.
Essa análise detalhada permitiu identificar períodos de estresse térmico intenso que costumam passar despercebidos em estatísticas diárias consolidadas. Segundo o levantamento, cerca de 80% das áreas terrestres analisadas apresentaram um aumento significativo nessas horas extremamente quentes nas últimas quatro décadas. O avanço ocorreu ao longo de todo o dia, mas registrou ritmo mais acelerado durante o período noturno.
Atualmente, um dia classificado como quente registra, em média, 16,4 horas de calor extremo. No cenário de maior emissão de poluentes, essa duração pode saltar para aproximadamente 21 horas diárias até o fim do século. O impacto afeta até mesmo as datas que não se enquadram na categoria de calor extremo pelas medições convencionais: nesses dias, o tempo sob temperaturas elevadas deve subir de pouco mais de uma hora atualmente para cerca de cinco horas.
Para especialistas da área, a mudança de perspectiva temporal é crucial. Em declarações prestadas ao Science Media Centre España, o meteorologista da Meteored e consultor da Organização Meteorológica Mundial (OMM), José Miguel Viñas, destaca que observar as variações horárias ao longo do dia é um dos aspectos mais relevantes do trabalho. No mesmo sentido, o presidente da Associação Meteorológica Espanhola, Ernesto Rodríguez Camino, ressalta que os dados contínuos trazem à tona situações invisíveis nas médias diárias, revelando novos picos de estresse térmico em escala horária.
Calor extremo faz buscas por ‘onda de calor’ baterem recorde global no Googlehttps://t.co/2WG223Niri
— Folha de S.Paulo (@folha) August 9, 2026
Buscas por ‘ondas de calor’ batem recorde global de pesquisas no Google (Foto: reprodução/X/@folha)
Noites quentes impedem recuperação do organismo
Um dos pontos mais preocupantes apontados pelos pesquisadores é a perda do alívio térmico noturno. As projeções indicam que cerca de 70% das horas de calor extremo registradas em dias considerados normais ocorrerão durante a noite no futuro.
A manutenção de temperaturas elevadas após o pôr do sol reduz diretamente a janela de tempo em que o corpo humano consegue se recuperar do estresse sofrido ao longo do dia. Sem o resfriamento noturno, o sistema cardiovascular e a qualidade do sono são gravemente afetados, aumentando os riscos de complicações de saúde e mortalidade na população exposta.
Desigualdade social e impacto geracional
Além das implicações fisiológicas, o estudo lança luz sobre a forte desigualdade geográfica e socioeconômica diante do aquecimento global. Países de baixa e média renda já concentram mais de três quartos da exposição atual e projetada a essas horas de calor extremo.
A disparidade também se manifesta no recorte geracional. Pessoas nascidas em 2023 acumularão ao longo da vida uma exposição substancialmente maior a episódios de calor prolongado em comparação com as gerações nascidas em 1981. Essa desproporção é ainda mais acentuada nas regiões mais pobres do planeta, onde a infraestrutura para adaptação e climatização de ambientes é limitada.
Os autores ressaltam que o acompanhamento horário não substitui os indicadores diários tradicionais, mas serve como ferramenta complementar indispensável. O detalhamento das horas e períodos em que o calor se manifesta permite aprimorar alertas meteorológicos, planejar ações de saúde pública e orientar medidas de adaptação urbana focadas na proteção da população.
