Crise migratória em Ceuta deixa mortos, desaparecidos e milhares de desabrigados
Famílias procuram parentes desaparecidos e menores permanecem sem abrigo e comida em Ceuta, à espera de uma resposta das autoridades espanholas
Cerca de 100 mil pessoas tentaram sair do Marrocos em direção a Ceuta desde a última quinta-feira, 30, em uma das maiores crises migratórias da região nos últimos anos. Segundo a Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH), a estimativa é de que 50 mil imigrantes tenham conseguido entrar na cidade nos últimos dias.
Até o momento, segundo o Globo News, foi confirmada a morte de 72 pessoas, além do registro de desaparecimentos. Também foram identificados centenas de adolescentes desacompanhados, que vivem em condições precárias em uma praia da cidade de Ceuta enquanto aguardam uma solução do governo espanhol.
O “êxodo coletivo” ocorreu por terra e por mar, com muitos imigrantes cruzando a distância entre as cidades a nado. Como forma de impedir a entrada dos marroquinos em Ceuta, as autoridades espanholas instalaram uma barreira marítima entre o Marrocos e o território espanhol. Grande parte das vítimas morreu afogada ao tentar contornar o bloqueio.
Busca por desaparecidos mobiliza famílias
Pessoas estão divulgando fotos de familiares e amigos desaparecidos nas redes sociais na tentativa de encontrá-los. Além disso, muitos imigrantes buscam informações sobre parentes desaparecidos, com quem não têm contato desde a travessia.
A orientação das autoridades espanholas é que os familiares façam um registro formal de desaparecimento e aguardem a recuperação dos corpos no mar. Com a chegada de equipes especializadas ao local, a expectativa é de que o reconhecimento das vítimas seja realizado com ainda mais agilidade.
Praia de Ceuta após chegada dos imigrantes marroquinos (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Henry Nicholls)
De acordo com o g1, menores de idade representam uma grande parcela dos desaparecidos. Além disso, muitos deles ainda estão em Ceuta, onde permanecem sem a supervisão de adultos e sem condições adequadas de abrigo, alimentação, vestuário e assistência básica.
Em entrevista à AFP, os jovens relataram que não se alimentam adequadamente desde que chegaram ao local, além de dormirem ao relento, em galpões abandonados ou em abrigos improvisados feitos de papelão, pallets e estruturas metálicas.
Jovens deixam o Marrocos em busca de oportunidades
De acordo com a AMDH, o deslocamento da população marroquina para a fronteira ocorreu em razão do agravamento das condições econômicas e sociais no país. Apesar do crescimento de 5% do Marrocos em 2025, as desigualdades permanecem. O PIB per capita do país, por exemplo, é cerca de oito vezes menor que o da Espanha.
Ao serem questionados pela AFP sobre o motivo da travessia, alguns jovens afirmaram que estavam indo para a Espanha em busca de melhores condições de vida e, mais especificamente, de oportunidades de trabalho.
É o caso de Abdulah Buji, estudante de 21 anos, que disse ser um “jovem talentoso” em busca de uma oportunidade. Ayoub, de 16 anos, também declarou ver a Espanha como uma alternativa para escapar do desemprego em seu país natal.
Imigrantes aguardam resolução das autoridades espanholas na praia de Ceuta (Foto: reprodução/Getty Images Embed/Anadolu)
A situação dos dois é comum a grande parte das pessoas entre 15 e 25 anos no Marrocos. Segundo organizações de direitos humanos, mais de 1,5 milhão de pessoas nessa faixa etária não estudam nem trabalham, o que coloca a falta de oportunidades como um dos principais motivos para o êxodo rumo à Europa.
Migração aumenta tensão diplomática entre Marrocos e Espanha
O aumento da migração para a Espanha também foi atribuído a outros fatores. Alguns espanhóis afirmam que uma das causas foi a recente decisão do Supremo Tribunal espanhol, que determinou que os migrantes interceptados no mar, vindos do Marrocos, não poderiam ser devolvidos imediatamente.
De acordo com o Ministério do Interior, organizações criminosas de tráfico humano se aproveitaram da decisão para incentivar a entrada de pessoas sem documentos em território espanhol.
Já o Observatório do Norte de Direitos Humanos, instituição marroquina, acusou o governo do Marrocos de usar a migração ilegal como ferramenta política, utilizando os cidadãos como instrumento de pressão contra a Espanha e ampliando, assim, a tensão diplomática entre os dois países.
