Milei Reduz inflação, mas enfrenta avanço da pobreza e do desemprego na Argentina

A economia argentina apresenta inflação mais baixa e crescimento anual, mas enfrenta aumento da pobreza, desemprego e dificuldades no consumo interno

19 out, 2026
Javier Milei | Reprodução/Instagram/@javiermilei
Javier Milei | Reprodução/Instagram/@javiermilei

A economia da Argentina vive um cenário de contrastes em 2026. Sob a presidência de Javier Milei, o país conseguiu reduzir o ritmo da inflação e registrar crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) na comparação com o ano anterior. Ao mesmo tempo, indicadores sociais e econômicos  mostram dificuldades para a população, com aumento da pobreza, desemprego elevado e perda de força do consumo e dos investimentos. Os resultados reacenderam o debate sobre os efeitos do programa de ajuste fiscal adotado pelo governo argentino.

A situação ganhou destaque no debate político realizado ontem pela Band, quando o Presidente Lula questionou Flávio Bolsonaro sobre a possibilidade de adotar medidas semelhantes a de Milei no Brasil. A discussão trouxe para o centro do debate os resultados e os custos sociais do modelo econômico argentino.

Economia cresce, mas perde força ao longo de 2026

Os números do Produto Interno Bruto (PIB), indicador que mede o valor dos bens e serviços produzidos em um país, mostraram que a economia argentina manteve o crescimento na comparação com 2025. No primeiro trimestre de 2026, o avanço foi de 2,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. No segundo trimestre, a alta ficou em 2%.

A comparação entre os trimestres, entretanto, revela uma situação menos favorável. Entre abril e junho, o PIB recuou 0,6% em relação aos três primeiros meses do ano, considerando os ajustes sazonais. O resultado indica uma perda de ritmo da atividade econômica, mesmo com o crescimento registrado na comparação anual.

O consumo privado, que representa os gastos das famílias, caiu 2,4% no segundo trimestre em relação ao primeiro. O consumo público recuou 2,3%, enquanto os investimentos diminuíram 0,8%. Na comparação anual, a formação bruta de capital fixo, indicador que acompanha os investimentos na economia, apresentou queda de 11,1%.

Os números ajudam a explicar por que o crescimento econômico não significa, necessariamente, uma melhora imediata nas condições de vida da população. A recuperação depende também da capacidade de gerar empregos, ampliar a renda e estimular o consumo doméstico. Enquanto setores ligados às exportações apresentam resultados positivos, atividades voltadas ao mercado interno enfrentam dificuldades. Essa diferença contribui para uma recuperação desigual, na qual os resultados macroeconômicos não se traduzem de maneira uniforme em benefício para empresas, trabalhadores e consumidores.

Inflação desacelera, mas preços continuam pressionando famílias

Um dos principais objetivos da política econômica de Milei é combater a inflação, problema histórico da Argentina. O país enfrentava uma forte escalada de preços antes da chegada do atual presidente ao poder, o que comprometia o planejamento financeiro das famílias e reduzia o poder de compra dos salários.

Em agosto de 2026, a inflação mensal foi de 1,7%, o menor resultado desde junho de 2025. Em setembro, porém, o índice voltou a acelerar, alcançando 1,9%. A inflação acumulada em 12 meses chegou a 33,4%, segundo os dados divulgados pelo órgão oficial de estatísticas argentino.

A desaceleração representa uma mudança importante em relação ao período de inflação muito elevada vivido pelo país. Ainda assim, é necessário distinguir a redução da velocidade dos aumentos de preços de uma queda efetiva no custo de vida. Quando a inflação diminui, os preços continuam subindo, mas em um ritmo menor. Para que as famílias recuperem seu poder de compra, também é necessário que os salários e outras fontes de renda acompanhem ou superem a evolução dos preços.

O ajuste fiscal implementado pelo governo incluiu cortes de despesas públicas e retirada de subsídios. Essas medidas fazem parte da estratégia de equilíbrio das contas do Estado, mas também aumentam a pressão sobre famílias que precisam arcar com despesas de transporte, serviços e itens essenciais. Além disso, a atividade econômica mais fraca dificulta a recuperação do consumo. Com menos dinheiro disponível e maior insegurança financeira, as famílias tendem a reduzir compras, o que pode prejudicar empresas que dependem da demanda interna.

Pobreza volta a crescer e interrompe sequência de queda

O avanço no controle da inflação não impediu uma piora recente dos indicadores sociais. Depois de registrar uma redução expressiva da pobreza ao longo de 2024 e 2025, a Argentina voltou a apresentar aumento da parcela da população que vive abaixo da linha de pobreza. No primeiro semestre de 2026, a taxa chegou a 32,3%, acima dos 28,2% registrados no segundo semestre de 2025. Os dados oficiais indicam que aproximadamente 9,7 milhões de pessoas estavam nessa condição nos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).

A trajetória recente ajuda a dimensionar o desafio enfrentado pelo governo. No primeiro semestre de 2024, a pobreza havia atingido 52,9% da população pesquisada. O indicador caiu nos períodos seguintes, mas a alta registrada em 2026 interrompeu essa sequência de melhora.


 

 

Ver esse post no Instagram

 

Um post compartilhado por DW Brasil (@dw.brasil)

Pobreza volta a crescer na Argentina e atinge um terço da população. (Vídeo: Reprodução/Instagram/@dw.brasil)


A extrema pobreza também aumentou. No primeiro semestre deste ano, o índice chegou a 7,5%, ante 6,3% no semestre anterior. Esse indicador considera pessoas cuja renda não é suficiente para cobrir as necessidades alimentares básicas, de acordo com os critérios utilizados pelo Indec.

Os dados mostram que o controle da inflação, embora importante para a estabilidade econômica, não resolve sozinho os problemas sociais. A recuperação da renda, a oferta de empregos e a capacidade de as famílias pagarem despesas básicas continuam sendo fatores determinantes para a melhora das condições de vida.

Desemprego e dificuldades no mercado de trabalho

O mercado de trabalho é outro ponto de atenção na economia argentina. No segundo trimestre de 2026, a taxa de desemprego chegou a 7,9%, de acordo com os dados citados em levantamentos recentes sobre a situação econômica do país. O resultado representa uma elevação em relação aos 7,8% registrados no trimestre anterior.

A redução do ritmo de setores como indústria e construção ajuda a explicar as dificuldades na geração de oportunidades. Ao mesmo tempo, empresas que dependem do consumo interno enfrentam um ambiente de demanda enfraquecida, o que pode limitar contratações e investimentos.

Outro dado que chama a atenção é a diminuição do número de empregadores com funcionários registrados. Segundo o levantamento publicado pelo g1, esse total caiu 6,3% desde novembro de 2023, período anterior ao início do governo Milei. O indicador reforça a necessidade de acompanhar os efeitos das mudanças econômicas sobre as empresas e o emprego formal.

A situação também evidencia uma diferença entre estabilizar as contas públicas e promover uma recuperação abrangente da economia. O equilíbrio fiscal pode contribuir para a previsibilidade econômica, mas seus efeitos sobre o cotidiano dependem de outros fatores, como investimentos produtivos, salários, crédito e geração de postos de trabalho.

Mais notícias