Governo ordena suspensão de transmissões ao vivo no Discord após morte de adolescente de 13 anos

Medida entra em vigor em até três dias. Plataforma pode ser bloqueada completamente se descumprir a decisão ou se novos casos ocorrerem

12 ago, 2026
Discord | Reprodução/Unsplash/Mariia Shalabaieva
Discord | Reprodução/Unsplash/Mariia Shalabaieva

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou nesta quarta-feira a suspensão de transmissões ao vivo no Discord no Brasil. A medida entra em vigor em até três dias e permanecerá até que a plataforma comprove adoção de medidas para proteger crianças e adolescentes. A decisão segue a morte de uma adolescente de 13 anos durante uma live na plataforma em junho.

A suspensão atinge especificamente o Go Live, recurso usado para transmissões de vídeo ao vivo dentro de servidores, e outros recursos equivalentes de compartilhamento de vídeo. O Discord continuará funcionando normalmente para mensagens, chamadas de voz e outros serviços. A plataforma não será bloqueada por completo.

Em caso de descumprimento, a ANPD imporá multa diária. O valor será definido posteriormente. O Discord tem dez dias úteis para apresentar recurso contra a decisão.

O processo de fiscalização pode evoluir para um processo sancionador. Se a agência identificar novos descumprimentos das medidas, a multa pode chegar a R$ 50 milhões e a suspensão total do serviço é possível.

A lei aprovada no Congresso Nacional este ano prevê que é necessária uma decisão judicial para que a suspensão seja aprovada pela ANPD. A agência cumpriu esse requisito antes de tomar a medida.

O caso que motivou a ação

O assunto ganhou destaque nacional quando Janja Lula da Silva, durante evento de sanção de lei sobre violência sexual contra crianças, cobrou o bloqueio da plataforma. Janja comentava em tempo real um caso de automutilação envolvendo a menina de 13 anos que faleceu em 22 de junho. “Precisamos retirar imediatamente o Discord do ar” e “bloquear o Discord no Brasil de qualquer forma”, afirmou.

Após a fala de Janja, o Ministério da Justiça iniciou uma rodada de conversas com representantes do Discord. Reuniões ocorreram na sexta-feira e segunda-feira. O ministro Jorge Messias afirmou que a Advocacia-Geral da União (AGU) ingressaria na Justiça com ação civil pública contra a plataforma.

O acompanhamento envolveu equipes técnicas do Ministério da Justiça e Segurança Pública, da AGU, da Polícia Federal e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom).

Cronograma da ação regulatória

A ANPD abriu processo de fiscalização na última sexta-feira. Os diretores se reuniram com representantes do Discord na terça-feira, quando a empresa apresentou informações sobre fiscalização das lives. A agência considerou essas informações insuficientes.

O Discord se comprometeu a apresentar uma proposta concreta de medidas e procedimentos. O plano foi entregue na segunda-feira, mas a ANPD avaliou que não atendia aos critérios de proteção necessários. Essa avaliação levou à determinação de suspensão anunciada hoje.


Discord (Foto: reprodução/Getty Images Embed/NurPhoto)


Resposta do Discord

O Discord afirmou ter identificado e desativado o servidor privado onde ocorreu a morte antes do acontecimento em junho. Segundo a plataforma, o servidor era acessível apenas mediante convite e não era localizado por outros usuários.

A empresa mantém equipes especializadas no combate a grupos envolvidos em atividades violentas. Essas equipes atuam para identificar ameaças, remover conteúdos que violam políticas e fornecer informações às autoridades quando necessário.

O Discord afirmou que denúncias feitas pela plataforma contribuíram para prisão de extremistas violentos, assim como respostas a solicitações de órgãos policiais. “Continuaremos trabalhando de forma incansável para coibir esse tipo de comportamento e auxiliar na identificação, prisão e responsabilização criminal dos indivíduos envolvidos”, disse a empresa.

Análise da ANPD

A ANPD concluiu que a plataforma vem sendo utilizada de forma recorrente como ambiente para graves violações contra crianças e adolescentes. As lives têm sido reiteradamente empregadas em práticas de violência, assédio, indução à automutilação e ao suicídio.

A arquitetura técnica do Discord não permite que a plataforma tenha acesso ao conteúdo das transmissões enquanto ocorrem. Isso inviabiliza a utilização de mecanismos de prevenção mais efetivos. A plataforma depende de sistemas automatizados falhos e de denúncias dos próprios participantes desses ambientes.

Dados da ONG SaferNet Brasil mostram que o número de denúncias envolvendo o Discord aumentou 54% no país. Na comparação dos sete primeiros meses de 2024 com o mesmo período de 2023, os números saltaram de 264 para 406 notificações.

A ANPD é vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e é responsável pela fiscalização do cumprimento da Lei do ECA Digital. O Discord tem dez dias úteis para apresentar recurso contra a decisão. A suspensão valerá até que a empresa comprove medidas efetivas de proteção a menores.

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