Primeira participação da RD Congo foi marcada por ameaças na Copa de 1974
Ainda chamada de Zaire a seleção foi a terceira representante africana na Copa até então; ditador Mobutu ameaçou toda a delegação em caso de nova derrota
Disputar uma Copa do Mundo de futebol é o sonho de toda seleção, mas para a República Democrática do Congo em 1974 foi sinônimo de pesadelo. O país, que ainda se chamava Zaire, participava pela primeira vez da competição e era apenas o terceiro país do continente africano a conquistar a tão sonhada vaga após o Egito, em 1930 e o Marrocos, em 1970.
A edição daquele ano foi realizada na Alemanda Ocidental e o país africano vivia um regime de ditadura, comandada pelo tenente-coronel Mobutu Sese Seko, que ameaçou de morte toda a equipe de morte caso perdessem o último jogo da primeira fase. A goleada foi evitada pelo zagueiro Mwepu Ilunga, que após um ato inesperado, “salvou a vida” de toda a delegação africana.
Promessas não cumpridas e ameaças de morte
Na Copa do Mundo de 1974, o Zaire estava no Grupo 2, que contava com o Brasil, Escócia e Iugoslávia. No dia 14 de junho, o Zaire estreou contra a Escócia e perdeu a partida por 2 a 0. Após o resultado negativo, os jogadores souberam que a não teriam mais a premiação garantida pelo ditador do país, o tenente-coronel Mobutu Sese Seko, já que o fundo havia sido desviado por alguns membros da Confederação africana.
Seleção do Zaire na estreia da Copa do Mundo de 1974 (Foto: reprodução/PA Images/Getty Images Embed)
Indignada, a equipe não queria mais continuar na competição, porém sofreu pressão da Fifa para seguir adiante, também com ameaças disciplinares. Contra a Iugoslávia os jogadores não mostraram esforço para vencer o jogo, e até o técnico ajudou no protesto. O treinador Blagoje Vidinic, além de deixar o seu melhor jogador na reserva, substituiu o goleiro titular e colocou o reserva Dimbi Tubilandu, que alguns minutos depois de entrar levou um gol quando a equipe já perdia por 3 a 0. O placar final impressionou quem estava presente, pois terminou em 9 a 0 para a Iugoslávia.
Totalmente irritado e incrédulo com o resultado, o tenente-general Mobutu Sese Seko deu o ultimato para toda a delegação, principalmente os jogadores. Se houvesse uma nova derrota e ela ultrapassasse quatro gols, todos seriam torturados e executados quando retornassem ao país, assim como seus familiares. Houve pânico entre o elenco, já que o próximo adversário seria o Brasil, que quatro anos antes havia conquistado o tricampeonato mundial.
Placar mostra os gols da partida entre Zaire e Iugoslávia em 1974 (Foto: reprodução/PA Images Archive/Getty Images Embed)
Medidas desesperadas
A partida contra a Seleção Brasileira foi no dia 22 de junho, no Estádio de Gelsenkirchen. Os jogadores do Zaire tinham um futebol inferior em campo comparado aos dos brasileiros, que contavam com um time de estrelas sob o comando de Zagallo. Apreensivos, os jogadores tentaram a todo custo evitar levar gols, mas Jairzinho e Rivelino balançaram as redes.
Passados pouco mais de 30 minutos do segundo tempo, uma falta perto da área foi marcada contra o Zaire, e o Brasil precisava de mais um gol para se classificar para a próxima fase. Enquanto o juiz arrumava a barreira e os jogadores brasileiros decidiam quem iria bater a falta, o zagueiro Mwepu Ilunga fez o impensável em campo. Saiu da formação e chutou a bola, a isolando para o outro lado do campo.
A atitude desportiva rendeu apenas um cartão amarelo para o jogador africano, que pode voltar à barreira em seguida para o chute oficial. Poucos minutos depois, Valdomiro chutou na área do goleiro Muamba Kazadi e marcou o gol que selaria a classificação brasileira para a próxima fase da Copa do Mundo. A seleção do Zaire se despediu da sua primeira Copa em último lugar do grupo com três derrotas e 14 gols sofridos.
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Lance do zagueiro Mwepu que evitou momentaneamente o terceiro gol do Brasil em 1974 (Vídeo: reprodução/Instagram/@yb.sports.br)
Revelação quase 30 anos depois
Décadas depois, Mwepu Ilunga pode falar abertamente do motivo que o levou a agir “sem noção” naquela partida. “Mobutu nos ameaçou de morte, já perdíamos por 3 a 0, fui tomado pelo pânico e chutei a bola para longe. Os brasileiros riam, mas não sabiam o que nós estávamos passando no momento”, disse o ex-zagueiro em 2002 durante uma entrevista a emissora de televisão BBC.
Por coincidência, a revelação veio cinco anos após o ditador ser desposto e morrer vítima de câncer em 1997, depois de 32 anos no poder. Por outro lado, Mwepu Ilunga se tornou herói da equipe em 1974. Seu ato antes da cobrança de falta ajudou a tirar o foco do ataque brasileiro e conseguiu frear uma goleada ainda maior. Por acréscimo, salvou a vida de seus colegas de time, que retornaram em segurança para seu país, mesmo que sem as premiações prometidas pelo governo do Zaire. O ex-zagueiro faleceu em 2015, aos 65 anos.
