Europa aprova boicote a torneios da Fifa se Infantino não desistir de venda de ações
Decisão unânime das 55 federações europeias pressiona presidente da Fifa a abandonar projeto de criar empresa para comercializar direitos do torneio
As 55 federações da Uefa aprovaram nesta quinta-feira um boicote à Fifa caso o presidente Gianni Infantino mantenha seu projeto de vender participações da Copa do Mundo a investidores privados. A decisão unânime em reunião virtual de emergência representa a reação mais dura contra o plano da administração da entidade máxima do futebol.
O projeto em questão prevê a criação da Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária destinada a concentrar os direitos comerciais, transmissão, patrocínio, licenciamento e operação dos torneios da Fifa. Segundo a administração, a entidade manteria o controle sobre a governança do futebol, mas a proposta abriu espaço para que investidores privados participem da estrutura de comercialização das competições mais importantes do calendário internacional.
O impacto do boicote
A ameaça europeia tem consequências potencialmente catastróficas para a viabilidade do torneio. Caso o boicote seja concretizado, a próxima Copa do Mundo poderá ser disputada sem seleções de peso como Inglaterra, França, Espanha, Alemanha, Itália e Portugal. A ausência dessas equipes colocaria em xeque tanto a viabilidade esportiva quanto a comercial do torneio, comprometendo a competitividade e o apelo global da competição.
O boicote não se limita apenas à Copa do Mundo. As federações europeias ameaçam não participar de todas as competições da Fifa, incluindo os Mundiais masculino e feminino de seleções e de clubes. Os primeiros jogos a serem boicotados pelas federações europeias seriam os play-offs de qualificação para o Mundial feminino de 2027, marcados para outubro, caso Infantino mantenha o projeto.
Em comunicado, a Uefa classificou o projeto como uma medida que ultrapassa uma linha que as entidades do futebol jamais deveriam cruzar. A organização ressaltou que a Copa do Mundo é um legado esportivo único, construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todo o continente.
“A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. Ela é um dos maiores legados esportivos do futebol. Nenhuma parte dela deve jamais ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda.”
Além de questionar o mérito do projeto, a Uefa criticou duramente a falta de transparência em sua elaboração. Segundo a entidade, a proposta foi apresentada sem qualquer consulta prévia às principais partes interessadas do futebol mundial, violando princípios básicos de governança.
“É irresponsável e indefensável que uma proposta de tamanha importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à iminência de aprovação sem qualquer consulta significativa àqueles encarregados de zelar pelo esporte.”
União das Associações Europeias de Futebol (foto: reprodução/Getty Images Embed/James Gill – Danehouse)
A disputa pelo controle do futebol
A Uefa também questionou o processo decisório da Fifa, argumentando que a abordagem viola princípios democráticos. A organização denunciou que as associações nacionais enfrentam um ultimato: aceitar a apropriação das maiores competições ou arcar com consequências, caracterizando isso como governança baseada em coerção.
“Isso não é uma decisão democrática, mas uma governança baseada na intimidação, um ato de coerção indigno de uma instituição encarregada de zelar pelo esporte global.”
Infantino exigiu resposta das federações até 19 de setembro, e o boicote europeu representa a resposta direta a esse ultimato. A decisão unânime das 55 federações da Uefa reflete a magnitude da rejeição ao projeto nos círculos do futebol europeu.
A Fifa, por sua vez, sustenta que o projeto depende apenas da aprovação da maioria das 211 associações nacionais filiadas à entidade. Mesmo sem o apoio da Uefa, a organização argumenta que poderá avançar com o projeto caso obtenha respaldo suficiente de outras confederações regionais, como as associações da América do Sul, Ásia e África.
O conflito permanece em aberto até a votação final prevista. Enquanto a Uefa mantém sua posição firme de rejeição, outras confederações ainda não se posicionaram claramente sobre o ultimato de Infantino, deixando em dúvida qual será o resultado final da votação nas associações nacionais.
