Júlio Baptista avalia futebol brasileiro e aponta erro de Neymar: “Não entendeu”

Ex-jogador do Real Madrid e Arsenal traz experiência europeia e filosofia de controle de jogo; critica falta de atualização de treinadores brasileiros

21 ago, 2026
Júlio Baptista | Reprodução/Instagram/@juliobaptistaoficial
Júlio Baptista | Reprodução/Instagram/@juliobaptistaoficial

Júlio Baptista, ex-jogador revelado pelo São Paulo que atuou em grandes clubes europeus, é o novo técnico do sub-20 tricolor. Assinou contrato até 31 de dezembro de 2028 e assume com filosofia de disciplina rigorosa. Tem 44 anos e substitui Allan Barcellos no comando da categoria.

Na carreira de jogador, Baptista conquistou títulos importantes pela base tricolor: o Torneio Rio-São Paulo, em 2001, e o Supercampeonato Paulista, em 2002. Seu currículo internacional inclui passagens por Sevilla, Real Madrid, Arsenal, Roma, Málaga, Cruzeiro, Orlando City e Cluj.

Pela Seleção Brasileira, disputou 48 jogos e marcou cinco gols. Conquistou bicampeonato da Copa das Confederações (2005 e 2009) e da Copa América (2004 e 2007). Integrou ainda o elenco da Copa do Mundo de 2010, em que o Brasil foi eliminado nas quartas de final.

Trajetória como técnico

Antes de chegar ao São Paulo, Baptista trabalhou no Real Valladolid entre 2019 e 2023, onde atuou nas categorias de base. Ronaldo era acionista do clube espanhol durante esse período. Possui licenças A e B da UEFA, que o habilitam a treinar em diferentes categorias.

Sua filosofia de liderança segue uma linha dura. Define-se como técnico situacional, capaz de se adaptar às circunstâncias, mas enfatiza a importância de um treinador multifacetado nos dias atuais. Acredita que a conexão com os jogadores é fundamental para o sucesso.

No São Paulo sub-20, Baptista implementou medidas de disciplina rigorosa. Proibiu palavrões nos treinamentos, argumentando que eles não contribuem para a orientação do companheiro. Limitou o uso de celular em horários específicos: café da manhã, almoço, jantar, preleção e treinamento. Os jogadores deixam os aparelhos em um quiosque no CT.

A justificativa pedagógica é clara na visão do técnico. Conforme explicado em entrevista, o celular causa distração e demora na compreensão dos exercícios. “Se eu visse qualquer jogador com o telefone ele não ia treinar”, afirmou Baptista sobre a proibição.

“Eu sou bem exigente, bem duro com os meninos. Mas aí depois, com o tempo, eles vão vendo que é tudo para o bem deles”

Segundo Baptista, jogadores demoram oito a dez minutos para entender um exercício quando têm celular. As consequências para quem não cumpre as normas são claras: não jogar é o castigo principal.

Durante sua passagem pela Espanha, Baptista percebeu diferenças comportamentais e educacionais entre jovens espanhóis e brasileiros. Os espanhóis, conforme sua avaliação, possuem mais educação. Ele ajustou o nível de disciplina no São Paulo conforme necessário e impõe normas claras com consequências para quem não cumpre.


Júlio Baptista é o novo técnico do sub-20 do São Paulo (Foto: reprodução/Instagram/@juliobaptistaoficial)


Desafios da formação moderna

Baptista identifica um desafio crescente na formação de jovens jogadores: a exposição em redes sociais. Muitos jovens se tornam conhecidos antes de estrear no profissional, o que cria uma realidade diferente daquela que o jogador realmente precisa viver. Um jogador em progressão, frequentemente, acredita que já é craque, situação que prejudica seu desenvolvimento. O fator familiar é importante para manter os pés no chão.

Ele percebe quando um jogador tem queda de rendimento causada por distração. Quando isso ocorre, chama o jogador para uma conversa e oferece uma escolha clara: mudar o comportamento ou ficar no banco. Acredita muito que o treinamento é inspiração para o jogo.

Baptista sofreu influências de grandes treinadores ao longo de sua carreira de jogador. Oswaldo de Oliveira foi importante no Brasil. Pita modificou sua posição quando perdia espaço no São Paulo. Joaquín Caparrós o modificou novamente em Sevilla. Arsène Wenger, Manoel Pellegrini e Dunga também moldaram sua forma de jogar e pensar o futebol.

Sua filosofia de jogo vem da escola espanhola de posse de bola. Gosta de jogar bem alto de sua área e prefere ter controle do jogo. Acredita que o controle gera melhor entendimento entre os jogadores. Um time com controle consegue fazer várias facetas: ajuda a conquistar títulos, a chegar mais longe e reduz o desgaste físico e mental. A transição, por sua vez, gera maior desgaste mental e físico.

Baptista faz crítica contundente à desatualização do futebol técnico brasileiro. “Eu acho que o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou”, afirmou em entrevista exclusiva ao ge. Critica a postura brasileira na eliminação para a Noruega na Copa do Mundo, entendendo que o Brasil não pode prescindir de ter a bola e sufocar o rival.

“A gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival, de querer a todo momento fazer gol”

O contrato até dezembro de 2028 permite um planejamento de longo prazo. O objetivo do São Paulo é preparar talentos para o time principal. O caminho é similar ao realizado por Filipe Luís no Flamengo, onde o treinador trabalha nas categorias de base antes de assumir a equipe profissional. Baptista retorna ao Brasil após mais de uma década atuando na Europa.

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