Ferrari passa 2025 em branco na F1 e acumula dúvidas sobre desempenho

Escuderia italiana completa 17 anos sem títulos; falhas no projeto do carro e instabilidade interna explicam mais uma temporada frustrante

29 dez, 2025
Charles Leclerc e Lewis Hamilton I Reprodução/ 	CARL DE SOUZA/ Getty Images Embed
Charles Leclerc e Lewis Hamilton I Reprodução/ CARL DE SOUZA/ Getty Images Embed

O pódio duplo em Abu Dhabi, no encerramento da temporada 2024, alimentou a sensação de que a Ferrari havia retomado o caminho certo. Mesmo com o vice no Mundial de Construtores, superada pela McLaren, o discurso em Maranello era de confiança em um 2025 capaz de encerrar a longa seca iniciada em 2008. Doze meses depois, porém, o otimismo deu lugar a um quadro bem menos animador.

A Ferrari passou 2025 sem vencer uma corrida principal na Fórmula 1. Lewis Hamilton chegou a triunfar na sprint da China, mas o resultado não entra nas estatísticas oficiais da categoria.

A falta de resultados expressivos, o desânimo de pilotos renomados e os conflitos internos marcaram a temporada da equipe de Maranello. O desempenho abaixo do esperado ampliou o jejum de títulos para 17 anos, o maior da história da escuderia, e expôs os principais fatores por trás de um ano amplamente frustrante.

SF-25 simboliza temporada frustrante da Ferrari

Embalada pelo bom desempenho de 2024, quando somou cinco vitórias, a Ferrari iniciou a temporada seguinte cercada de confiança. A chegada de Lewis Hamilton reforçava a sensação de que o projeto tinha tudo para engrenar rapidamente. Na prática, porém, o caminho escolhido não se confirmou.

Batizado de SF-25, o carro representou uma ruptura clara em relação ao modelo anterior. A equipe apostou em um conceito mais agressivo, com o monoposto rodando mais próximo do solo para ganhar rendimento em altas velocidades — justamente um dos pontos que haviam limitado o desempenho no ano anterior. A estratégia, no entanto, não entregou os resultados esperados.

“O raciocínio por trás dessa mudança de arquitetura foi limpar o fluxo de ar ao redor do carro, ao mesmo tempo, ampliando a margem para um maior desenvolvimento aerodinâmico, que já estava praticamente esgotado anteriormente,” disse o time italiano.

Logo no início da temporada ficou evidente que o novo carro da Ferrari não entregava o desempenho esperado. O sinal mais claro veio ainda na segunda etapa do campeonato, quando Lewis Hamilton foi desclassificado no GP da China após desgaste excessivo na prancha do assoalho, indício de que o SF-25 estava rodando mais baixo do que o previsto no projeto.


Lewis Hamilton foi o vencedor da corrida sprint da China (Foto: reprodução/Instagram/@lewishamilton)


Com resultados abaixo do esperado de ambos os pilotos, o foco dos problemas se concentrou no carro. Mesmo mais adaptado à equipe, Charles Leclerc conseguiu amenizar o cenário com sete pódios e uma pole position inesperada na Hungria. No entanto, a própria etapa de Budapeste reforçou as dúvidas: após largar bem, o monegasco perdeu rendimento na corrida, terminou apenas em quarto e mostrou ritmo distante dos líderes.

A queda brusca de performance levantou suspeitas no paddock, inclusive entre rivais, de que a Ferrari precisou alterar parâmetros durante a prova para evitar irregularidades técnicas. A leitura geral era de que o SF-25 operava no limite do regulamento ao insistir em um acerto extremamente baixo, comprometendo consistência, desgaste e competitividade ao longo das corridas.

Ao longo do campeonato, novas falhas ficaram evidentes, assim como as dificuldades para corrigi-las. Os freios viraram alvo constante de reclamações de Hamilton e Leclerc, que chegaram a demonstrar frustração com a falta de controle do carro em algumas provas. Internamente, a própria equipe reconhecia que o desempenho não se sustentava por muitas voltas.


Lewis Hamilton, Frederic Vasseur e Charles Leclerc, em Monza (Foto: reprodução/NurPhoto/ Getty Images Embed)


O SF-25 até mostrava bons momentos quando exigido ao máximo, mas apenas por curtos períodos, o que tornava inviável brigar por resultados expressivos. Na prática, a Ferrari passou boa parte de 2025 administrando o ritmo para evitar desgaste excessivo e perdas maiores de performance. Não por acaso, o “lift and coast” se tornou rotina nos rádios, símbolo de uma temporada marcada por limitações técnicas e falta de consistência.

O cenário resultou em uma temporada decepcionante para a dupla. Leclerc ainda conseguiu alguns pódios, mas sofreu quedas bruscas de rendimento em corridas decisivas. Já Hamilton enfrentou um ano particularmente difícil: sem subir ao pódio, o britânico precisou lidar não apenas com a adaptação a uma nova equipe, mas também com um carro incapaz de entregar o que se esperava.

Hamilton cobra mudanças e expõe desgaste interno na Ferrari

Hamilton tentou se integrar à Ferrari desde o início, aproximando-se da equipe e mergulhando nos processos internos. Com o andamento da temporada, passou a enxergar a necessidade de correções urgentes no projeto e na forma de trabalho da escuderia.

Após o GP da Bélgica, o britânico enviou relatórios à direção cobrando mudanças estruturais e técnicas, incluindo problemas do SF-25 e dificuldades como o aquecimento dos pneus. Meses depois, reforçou as críticas e demonstrou frustração com a pouca influência nas decisões e a resistência interna.

O ambiente ficou ainda mais tenso após o GP de São Paulo, com o abandono dos dois carros. O episódio evidenciou o desgaste interno e o desalinhamento entre pilotos e comando da Ferrari.


SF-25 de Lewis Hamilton e Charles Leclerc no Circuito da Emilia-Romagna (Foto: reprodução/ Peter Fox/ Getty Images Embed)


Falhas de comunicação ampliam crise da Ferrari na temporada

Além dos entraves técnicos e estruturais, a Ferrari também enfrentou problemas de comunicação ao longo da temporada. Em alguns momentos, Hamilton e Leclerc demonstraram incômodo com a troca de informações via rádio, mas o caso mais sensível envolveu o heptacampeão e seu engenheiro de pista, Riccardo Adami.

Desde a etapa de abertura, na Austrália, surgiram sinais de desalinhamento. Hamilton se mostrou irritado com a repetição constante das mensagens no rádio e chegou a pedir, mais de uma vez, que as instruções fossem transmitidas apenas uma vez, para evitar distrações durante a pilotagem.

A relação ganhou contornos mais evidentes no GP de Mônaco, quando uma resposta considerada imprecisa sobre a distância para os líderes gerou desconforto. Após a corrida, Hamilton agradeceu pelo trabalho, mas não recebeu retorno do engenheiro, o que chamou atenção. O episódio alimentou dúvidas sobre a continuidade da parceria e simbolizou mais um aspecto do ambiente instável vivido pela Ferrari em 2025.

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