Cristiano Ronaldo e Benzema desafiam clubes sauditas e expõem crise na liga
Em menos de sete dias, dois dos maiores nomes do futebol mundial se recusaram a jogar, expondo disputas internas e críticas à gestão do futebol saudita
A recente temporada do futebol saudita passou a ser marcada por um episódio incomum: dois dos maiores nomes do esporte mundial decidiram se posicionar publicamente contra o modelo de gestão que sustenta os principais clubes do país. Em um intervalo de poucos dias, Karim Benzema e Cristiano Ronaldo optaram por não entrar em campo, em decisões que vão além de questões técnicas ou físicas. O pano de fundo envolve insatisfação direta com o Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF), responsável por financiar e administrar parte expressiva da elite do futebol local.
O gesto dos astros ocorre em um momento sensível para o projeto esportivo saudita, que apostou pesado em contratações de impacto global para consolidar a Saudi Pro League como vitrine internacional. Nos bastidores, porém, surgem sinais de que o fluxo de recursos e o tratamento dado aos clubes não são percebidos como equilibrados, o que alimenta tensões internas e expõe fragilidades do modelo centralizado.
Reavaliação financeira e mudanças de rota do PIF
O PIF controla diretamente quatro clubes estratégicos do país, Al-Hilal, Al-Nassr, Al-Ittihad e Al-Ahli, e atua como o principal motor financeiro da liga. No entanto, reportagens internacionais apontam que o fundo enfrenta dificuldades para manter todos os projetos idealizados nos últimos anos.
Parte dos investimentos liderados pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman não apresentou o retorno esperado, o que levou a uma revisão de prioridades e a uma tentativa de reduzir prejuízos.
Karim Benzema se recusou a jogar pelo Al-Ittihad após discordar da proposta de renovação (Vídeo: Reprodução/Instagram/@spl)
Esse cenário abriu espaço para discussões sobre a saída gradual dos clubes da tutela direta do fundo, com a perspectiva de privatização e entrada de investidores independentes. O Al-Hilal aparece como o mais adiantado nesse processo, negociando para deixar o controle do PIF antes dos demais. Enquanto a transição não se concretiza, o clube segue agressivo no mercado, o que tem gerado desconforto entre rivais.
Proposta contestada e sensação de favorecimento
No caso de Benzema, o estopim foi a proposta de renovação apresentada pelo Al-Ittihad. O atacante considerou os termos oferecidos desrespeitosos e, em sinal de protesto, recusou-se a atuar em uma partida recente. Pouco depois, iniciou conversas para defender justamente o Al-Hilal, em uma possível troca de camisa dentro do próprio futebol saudita. O movimento reforçou a percepção de que o clube azul segue contando com maior margem de manobra financeira.
Já Cristiano Ronaldo avalia que o Al-Nassr tem sido colocado em posição de desvantagem estrutural. Para o português, o tratamento diferenciado dado ao Al-Hilal pelo PIF e pela liga compromete a competitividade esportiva. A decisão de não atuar em compromisso recente foi interpretada como uma forma de pressão por critérios mais equilibrados e por condições reais de disputa por títulos de peso.
Desde que chegou à Arábia Saudita, em 2023, Ronaldo ainda não conquistou troféus de grande relevância com o Al-Nassr, o que amplia a frustração. Somados, os episódios envolvendo ele e Benzema evidenciam que, apesar do discurso de crescimento e modernização, o projeto bilionário do futebol saudita enfrenta sua primeira crise de credibilidade interna, agora exposta pelos próprios protagonistas que ajudaram a colocá-lo sob os holofotes globais.
