Arnaldo critica influência do VAR e defende árbitros mais firmes: ‘Jogador tem que ter medo’

Ex-juiz internacional e comentarista da Globo por 29 anos defende que bom árbitro se impõe por convicção, sem depender da tecnologia para tomar decisão

11 set, 2026
Arnaldo Cezar Coelho | Reprodução/Instagram/@arnaldocezarcoelho
Arnaldo Cezar Coelho | Reprodução/Instagram/@arnaldocezarcoelho

Arnaldo Cezar Coelho, 83 anos, voltou aos estúdios da Globo no Jardim Botânico para falar sobre arbitragem. Com mais de cinco décadas de experiência entre o campo e a televisão, o ex-árbitro mantém críticas contundentes ao futebol atual, particularmente ao VAR. Hoje trabalha com criação de comerciais e como CEO da TV Rio Sul, mas é na arbitragem que sua perspectiva permanece aguçada.

Sua trajetória começou nas praias de Copacabana. Arnaldo foi árbitro de futebol de praia antes de ingressar na Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro em 1964. Depois transitou pela Federação Paulista de Futebol, acumulando experiência que o levaria aos maiores palcos do futebol. Integrou o quadro da Fifa durante 21 anos, esteve em duas Olimpíadas e cinco Mundiais, participando de três competições sub-21 e duas profissionais.

Foi o primeiro árbitro brasileiro e não europeu a apitar uma final de Copa do Mundo, em 1982. Antes disso, havia arbitrado a Copa de 1978, consolidando sua posição entre os maiores juízes do futebol internacional.

A passagem para a televisão

Sua carreira na TV começou de forma acidental. Em 1989, estava em casa quando Galvão narrava um jogo do Chile pelas Eliminatórias e um árbitro colombiano cometeu um erro evidente. O lance o impulsionou para uma trajetória que duraria quase três décadas. Entre 1989 e 2018, foi comentarista de arbitragem da TV Globo e trabalhou em oito Copas do Mundo. Criou um formato de análise espontânea, explicando decisões arbitrais sem teleprompter enquanto elas aconteciam. Seu ponto de partida marcante foi em 1986, quando explicava o gol de mão de Maradona, um lance que definiria sua marca como comentarista.

Sua presença nas decisões da Fifa o colocou em posição privilegiada. Arnaldo estava presente quando o VAR foi apresentado e ouviu Pierluigi Collina, o árbitro italiano icônico, fazer uma afirmação que marcaria seus estudos posteriores.

“O VAR é o paraquedas do árbitro, o VAR vai acabar com as injustiças do futebol”, disse Pierluigi Collina conforme relatado por Arnaldo.

A realidade se mostrou diferente. O ex-comentarista se autodefine nas redes como “Ex-comentarista de arbitragem antes do VAR”, um rótulo que sintetiza sua decepção com a tecnologia.


Arnaldo ao lado de Caio Ribeiro e Walter Casagrande (Foto: reprodução/Instagram/@arnaldocezarcoelho)


O problema da transferência de responsabilidade

O cerne da crítica de Arnaldo está na transferência de responsabilidade que o VAR provocou. > “O VAR começou a se meter em tudo e, com isso, o árbitro transfere para o VAR toda jogada mais polêmica”, afirma. Um exemplo ilustra o argumento: o Brasil perdeu da Noruega com um pênalti absolutamente claro que não foi apitado. Arnaldo não economiza na descrição: > “Até o sorveteiro do estádio viu” o lance que evidencia o despreparo da arbitragem atual.

A metodologia do sistema agrava o problema. O VAR se baseia em câmera lenta e foto, não no filme completo do lance. Nelson Rodrigues, cronista que Arnaldo admirava, já havia afirmado que videotape é burro. Um exemplo prático: a foto mostra um jogador se apoiando nas costas de outro, mas a bola já estava quase dentro da meta. O árbitro precisa de bom senso para interpretar se aquele toque foi posterior ao lance ou se interferiu efetivamente. A câmera lenta transforma em violência o que pode ter sido um movimento natural.

As consequências alteraram o futebol. “Virou futebol de aterro, futebol de praia que antigamente não tinha juiz”, resume Arnaldo. Qualquer contato no braço vira pênalti. O árbitro, teoricamente, interpreta as 17 regras do futebol, e a maioria delas exige interpretação pessoal.

A volta à convicção

A solução, na visão de Arnaldo, passa pela personalidade. “Apitar é convicção. ‘Pi!’ e vai embora”. Um bom juiz decide sem hesitar e sem necessidade de confirmação. O VAR, nesse cenário, permaneceria inativo porque não seria necessário.

A formação de árbitros revela deficiências abissais. Um médico faz residência antes de atender seus primeiros pacientes. Um cirurgião observa cirurgias antes de operar. Um árbitro se forma e pronto, sem currículo adequado. Há juízes com poucos anos de idade que se tornam árbitros da Fifa sem experiência mínima, perpetuando um ciclo de despreparo.

A questão da segurança pessoal é inegociável. Um árbitro com personalidade apita sem vacilar. Hoje, segundo Arnaldo, os juízes não possuem essa segurança. Não se posicionam no lugar da falta porque temem discussão. Fazem gestos que Arnaldo considera inadequados, cruzam os braços sobre a cabeça, conversam apenas com capitães. A autoridade se dissipou, substituída por fragilidade que contamina o sistema inteiro.

Impunidade e falta de autoridade

“A impunidade estimula a violência. A impunidade permite essa bagunça toda”, afirma Arnaldo. O capitão comanda o árbitro, se sente no direito de discutir cada decisão. O juiz nunca comenta quando um jogador erra três gols ou toma um frango. O treinador erra, o jogador falha, o comentarista falha, e ninguém é responsabilizado. Esse vácuo de consequências permite que a desonestidade prospere.

Armando Marques, ex-chefe de arbitragem, foi ídolo de Arnaldo. Armando não dava conversa para dirigentes de clubes, mantinha uma distância profissional que preservava a autoridade da arbitragem. O erro dos comandantes atuais é dialogar demais com dirigentes que veem apenas o lado de seus clubes. Dirigentes só fazem ofício quando perdem; aí a CBF dá satisfação, uma dinâmica que enfraquece a instituição.

Zico oferece um contraste ilustrativo. Quando foi para o Japão e perdeu o primeiro jogo, culpou o árbitro. A Federação Japonesa multou Zico em dez mil dólares. Ele pagou e nunca mais mencionou juiz. Treinadores brasileiros transformam a área técnica em palco, enquanto no Japão ficam quietos, respeitando as normas.

O teatro da área técnica

A área técnica se tornou cenário de reclamações. Antigamente o treinador permanecia no fosso; se se levantava, era expulso. Hoje há uma zona técnica transformada em palco de protestos. O treinador faz gestos, reclama do juiz, vai a um árbitro reserva reclamar de decisões. Essa falta de contenção reflete no comportamento dos jogadores, criando um ambiente onde a desobediência é normalizada.

A síntese de Arnaldo é direta. O árbitro precisa de bom senso e capacidade de interpretar as 17 regras do futebol. Um mau juiz transfere sua responsabilidade para o VAR. Um bom juiz apita com convicção e personalidade, e o jogador tem que ter medo do árbitro. É essa volta aos fundamentos que ausenta do futebol brasileiro atual.

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