Pílula contra câncer de pâncreas que surpreendeu médicos é aprovada nos Estados Unidos
Medicamento age sobre proteína RAS e reduz risco de morte em 60%; aprovação foi seis meses mais rápida que o previsto
A FDA aprovou na última quarta-feira (26) o daraxonrasib (Rasonque) para adultos com câncer de pâncreas metastático que já receberam tratamento anterior. O medicamento, tomado uma vez por dia, dobrou a sobrevida mediana em relação à quimioterapia convencional em estudo com 500 pacientes e reduz o risco de morte em 60%.
Novo tratamento contra câncer de pâncreas aumenta sobrevida
O anúncio veio poucos meses após a apresentação dos resultados na ASCO (American Society of Clinical Oncology), em junho, em Chicago. A sessão plenária onde os dados foram expostos provocou ovação entre os médicos presentes. O estudo de fase 3, chamado RASolute 302, comparou o daraxonrasib com a quimioterapia convencional em 500 pacientes randomizados.
O daraxonrasib age sobre diferentes formas da proteína RAS, um interruptor celular que, quando mutado, trava na posição ‘ligado’ e não para de ordenar às células que cresçam e invadam outros tecidos. A RAS está alterada em mais de 90% dos tumores pancreáticos. Bloqueá-la foi considerado durante décadas um dos grandes desafios da oncologia.
No ensaio clínico RASolute 302, 500 pacientes foram divididos por sorteio em dois grupos. Um recebeu o comprimido de daraxonrasib; outro seguiu com quimioterapia convencional. O formato elimina vieses e garante que as diferenças sejam atribuíveis ao tratamento. Os resultados foram considerados finais.
No grupo com mutação RAS G12, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com daraxonrasib contra 6,6 meses com quimioterapia. O tempo até a doença voltar a avançar foi de 7,3 meses contra 3,5 meses com quimioterapia. Os números foram praticamente idênticos quando analisado o grupo total de pacientes do estudo.
Mais de 31% dos pacientes que tomaram daraxonrasib tiveram redução mensurável do tumor, contra 11,2% no grupo de quimioterapia. O perfil de segurança também se destacou: apenas 1,2% dos que usaram daraxonrasib precisaram interromper o tratamento por efeitos colaterais, comparado a 11,2% no grupo que recebeu quimioterapia.
Os pesquisadores responsáveis pelo RASolute 302 concluem que o daraxonrasib deve se tornar novo padrão de tratamento para câncer de pâncreas metastático em segunda linha (após a falha da quimioterapia). O estudo foi publicado no Journal of Clinical Oncology.
Stephen Stefani, oncologista da Americas Health Foundation, estava na sessão plenária em Chicago quando os resultados foram apresentados. Ele explica a reação dos médicos:
“Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença.”
Stefani detalha por que o aplauso foi merecido. “Eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica, e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido.”
Quanto aos números, ele oferece uma leitura importante:
“Os 13 meses são uma mediana, há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor.”
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Nova pílula para tratar câncer de pâncreas foi aprovada nos Estados Unidos (Foto: reprodução/Instagram/@folhadecuritiba)
Novo remédio é aprovado contra câncer de pâncreas
O resultado, segundo Stefani, representa avanço numa direção que por muito tempo pareceu fechada. Oferece sobrevida real a pacientes para os quais até agora pouco havia a fazer.
O câncer de pâncreas é especialmente letal. Não produz sintomas nos estágios iniciais, e cerca de 80% dos casos já estão em estágio avançado ou metastático quando diagnosticados, significando que a doença se espalhou para outros órgãos, fora do alcance de cirurgia.
Nos EUA, aproximadamente 60 mil pessoas recebem diagnóstico de câncer de pâncreas por ano; 50 mil morrem. No Brasil, 13 mil novos diagnósticos anuais resultam em cerca de 12 mil mortes. A sobrevida em cinco anos para a forma metastática é de apenas 3%, uma das mais baixas entre todos os cânceres.
A resistência da doença ao tratamento está em grande parte ligada à proteína RAS. Quando mutada, ela trava numa posição que não permite desligar. Por décadas, pesquisadores tentaram bloqueá-la e falharam. A molécula não oferecia uma superfície clara onde uma droga possa se fixar, o que levou a comunidade científica a chamá-la de ‘undruggable’, intratável.
O daraxonrasib conseguiu quebrar esse paradigma. Não apenas bloqueou a RAS, mas em várias de suas variantes ao mesmo tempo. Para os pacientes do estudo, todos metastáticos e sem mais opções após quimioterapia, isso fez uma diferença de 6,5 meses a mais de vida em mediana.
Kyle Diamantas, comissário interino da FDA, afirmou que a aprovação oferece uma alternativa importante. “A aprovação de hoje oferece uma nova opção fundamental para pacientes diante de um câncer extraordinariamente difícil e historicamente complicado de tratar.”
A aprovação ocorreu cerca de seis meses e meio antes da data prevista para conclusão da análise regulatória. Menos de três meses depois da apresentação na ASCO, o medicamento deixou de ser apenas experimental nos Estados Unidos.
