Felca revela diagnóstico de fobia social em vídeo considerado o mais difícil de sua vida
Influenciador relata oito anos de bullying na adolescência e anuncia projeto de três meses para ampliar participação em atividades sociais
Felca retornou às redes sociais na madrugada desta terça-feira (20) após sete meses afastado. Em vídeo de uma hora e três minutos publicado no YouTube, o influenciador de 27 anos revelou diagnóstico de fobia social com apresentação de laudo médico e relatos de oito anos de bullying na adolescência, incluindo agressões físicas e humilhações que afetaram sua vida adulta.
“Eu tenho fobia social. Esse é o meu laudo. Esse é o vídeo mais sincero e mais difícil que eu já fiz. Eu não sei se eu vou postar ainda, mas, se você está vendo, eu postei”.
O influenciador havia anunciado seu retorno no domingo (18) com a frase “Eu me escondi por tempo demais”. O afastamento ocorreu após repercussão de um vídeo anterior sobre adultização de crianças e adolescentes, quando Felca se fechou e permaneceu aproximadamente cinco meses sem sair de casa. A última vez que havia saído antes de gravar o novo vídeo foi para uma premiação.
Oito anos de bullying na adolescência
Felca começou a sofrer bullying aos 12 anos, quando agressões verbais evoluíram para físicas. Um episódio que marcou sua trajetória ocorreu no banheiro da escola, onde cinco meninos maiores o agrediram.
“Eu lembro de um dia, por mais que meus agressores provavelmente não lembrem, que eu estava no banheiro e cinco meninos maiores e mais fortes do que eu me bateram. Não me bateram só até eu cansar, mas até eles cansarem”.
Depois dessa agressão, permaneceu trancado em uma cabine chorando. Em outro episódio, uma colega impediu que o ajudasse e o chamou de “nojento”. Felca também relata uma brincadeira humilhante na qual colegas colavam adesivos nas costas de estudantes, e ele passou parte do período escolar retirando-os. Descobriu depois que havia uma lista elaborada por alunos com nomes das pessoas mais ridicularizadas, aparecia em primeiro lugar.
“Eu sentia muita vergonha e muito medo por não estar conseguindo sair dos braços deles. Eu me debatia, mas eu não conseguia sair. Eles eram muito mais fortes do que eu”.
Entre 14 e 18 anos, Felca teve pensamentos relacionados ao desejo de que a dor acabasse. Demorou para reconhecer que era vítima de bullying e tentou minimizar as agressões durante anos. Quando pedia ajuda, frequentemente ouvia que era brincadeira ou exagero, o que aumentava sua sensação de isolamento.
“Dos 14 aos 18, eu sobrevivi. Eu me mantive vivo, e isso foi tudo.”
Ao concluir o colégio, recusou frequentar faculdade. Explicou aos pais que não conseguiria enfrentar uma sala de aula.
“Quando eu terminei o colégio, eu tinha apanhado tanto, por tanto tempo, foram oito anos, que eu disse para os meus pais: ‘Eu vou fazer vídeo, o que seja, mas eu não vou conseguir enfrentar uma faculdade. Eu não consigo enfrentar mais uma sala de aula'”.
Optou por fazer vídeos em vez de prosseguir com a educação formal, sentindo que experiências importantes da juventude foram roubadas.
Felca (Vídeo: reprodução/YouTube/@felcaseita)
Fobia social na vida adulta
Apesar de conseguir participar de gravações e eventos, Felca experimenta sintomas físicos intensos em situações sociais. Seus batimentos cardíacos chegam a 138, 140 ou 150 bpm, mesmo quando está parado. O nervosismo aparece em atividades cotidianas como ir ao shopping ou passar pela portaria do prédio.
Encontrou no álcool uma maneira de suportar compromissos profissionais. Bebia em casa antes de eventos e levava cantil com vodca para continuar consumindo durante os mesmos. Conforme seus compromissos aumentaram, programas de TV, eventos, parcerias, a dependência cresceu.
“Eu bebia só para enfrentar pessoas. Quando eu passei a ir a programa toda semana, evento, web, parceria, eu me vi alcoólatra.”
Um episódio grave ocorreu durante gravação de um vídeo para Virginia Fonseca em um shopping. A ideia era entrevistar pessoas, mas não conseguia reunir coragem. Consumiu aproximadamente meia garrafa de vodca antes da gravação e permaneceu cerca de duas horas dentro do carro tentando criar ânimo. Continuou bebendo durante o dia inteiro.
Ao voltar para casa após passar o dia sem comer e consumindo álcool, perdeu a consciência. Tentou vomitar no banheiro, desmaiou novamente e caiu no chão. Acordou no dia seguinte com dores intensas nas costas. Seus pais o levaram ao hospital, onde foi diagnosticado com duas costelas quebradas. O médico informou que a queda poderia ter provocado lesão ainda mais grave, e Felca precisou de morfina durante o tratamento.
No hospital, refletiu sobre o caminho que o levou até aquela situação. Percebeu que para outras pessoas uma gravação simples seria apenas uma ideia e retorno para descansar, enquanto ele estava sozinho e responsável. Prometeu abandonar a bebida, mas voltou a consumir quando precisou comparecer a novos compromissos profissionais. Após três dias sem beber, sentiu tremores pelo corpo e reconheceu a gravidade da relação que havia desenvolvido com o álcool.
“Eu percebi que a fobia social ainda está toda aqui. Eu não enfrentei de verdade, eu enfrentei de mentirinha, porque é isso que o álcool faz, faz você viver uma vida de mentirinha.”
Felca participou do programa Roda Viva e passou dois dias sem dormir antes da gravação por nervosismo. Apesar de construir carreira diante das câmeras, a exposição pública não significou desaparecimento do transtorno. Costumava se sentir melhor depois de participar das atividades, mas o medo permanecia constante.
Novo projeto e retomada
Felca anunciou um projeto pessoal de três meses para ampliar sua participação em atividades sociais. A proposta é aceitar mais convites e frequentar novos ambientes, compartilhando essas experiências com seguidores. O objetivo é deixar de usar o isolamento como resposta ao medo.
Pretende mostrar momentos da rotina com mais frequência nas redes sociais, incluindo aqueles em que se sinta inseguro, para estabelecer conexões com outras pessoas. Anunciou também o retorno do Sofá do Felca, projeto em que recebe convidados para conversar em sua casa, surgido da vontade de criar essas conexões apesar da fobia social.
Decidiu transformar parte de sua experiência em iniciativa voltada às crianças. Realizará palestras gratuitas em escolas sobre bullying e os danos provocados pela violência, com objetivo de confortar crianças que estão sofrendo neste momento. Não cobrará nada pelas palestras.
Lançou também o desafio #simfel, que visa levar pessoas a dizer “mais sim do que não”, enfrentando medos nas interações sociais. Agradeceu sua versão adolescente por ter continuado vivo e recordou as viagens, amizades e conquistas profissionais que não teria conhecido caso tivesse encerrado a própria vida.
Alguns dos antigos agressores pediram desculpas anos depois, e Felca decidiu perdoá-los.
