Miguel Falabella é condenado na Justiça por plágio em obra teatral
Ator usou tradução de Alípio Franca Neto de 1997 sem crédito; laudo pericial comprovou que adaptação se baseou no trabalho anterior
A Justiça do Rio de Janeiro condenou o ator e diretor Miguel Falabella por plágio em tradução. A montagem brasileira “A Escola do Escândalo”, dirigida por Falabella e estreada em 2011, utilizou a tradução de Alípio Franca Neto, publicada em 1997 pela Editora Papirus, sem autorização e sem crédito ao tradutor original. A peça é uma adaptação de The School for Scandal, obra de Richard Brinsley Sheridan (1751-1816).
Segundo a Justiça do Rio de Janeiro, Falabella foi condenado a pagar R$ 5.000 de indenização por danos morais, além de reparação por danos materiais a ser definida com base no faturamento da peça. O laudo pericial que fundamentou a sentença concluiu que a tradução de Franca Neto serviu de base para a versão de Falabella, ou seja, não foi uma nova tradução diretamente do original, mas uma adaptação baseada no trabalho anterior. A corte entendeu que Falabella violou o direito de paternidade ao replicar parcela significativa do trabalho sem menção ao tradutor, segundo o jornal A Folha de S. Paulo.
A condenação e seus fundamentos
Alípio Franca Neto afirmou que sua versão tinha características próprias que a distinguiam do original em inglês. A tradução continha jogos de palavras, trocadilhos e construção sintática incomum, além de nomes próprios ricos em sentidos. Segundo Franca Neto, a similaridade entre as expressões usadas por Falabella, os nomes de personagens, a inventividade e o estilo não poderiam ser coincidência.
Ver essa foto no Instagram
Maria Padilha em “A Escola do Escândalo”, peça dirigida por Miguel Falabella (Foto: reprodução/Instagram/@mpadilhareal)
“É impossível se falar em coincidência”, afirmou Alípio Franca Neto, citando a similaridade entre expressões, nomes de personagens, inventividade e estilo.
O tradutor sustentou que um trabalho intelectual de adaptação de textos clássicos não é simples repetição, mas resultado de escolhas linguísticas e artísticas deliberadas. A sentença acolheu esse argumento, reconhecendo que as coincidências foram demasiadas para serem atribuídas ao acaso.
A defesa do ator
Falabella argumentou que “The School for Scandal” é de domínio público, o que significa que qualquer pessoa pode traduzir a obra independentemente de autorização. De acordo com a defesa do ator, coincidências são comuns quando múltiplos tradutores trabalham a partir do mesmo texto original, já que a língua portuguesa oferece um repertório limitado de palavras e expressões vernáculas.
“Semelhanças são inevitáveis”, afirmou Falabella.
O ator alegou também que adaptou a peça ao contexto brasileiro, tornando-a mais atual e acessível ao público. Conforme a defesa, Falabella modificou a ordem dos acontecimentos e as falas dos personagens em relação à tradução anterior.
The School for Scandal estreou em Londres em 1777 e se tornou o maior sucesso de público e crítica de Richard Brinsley Sheridan. Falabella ainda pode recorrer da condenação. A ação tramita sob segredo de Justiça.
