Chile registra 110 detenções em protestos pelos sete anos do levante social de 2019
Manifestações no Chile deixam 18 feridos e marcam sete anos da revolta social de 2019, que levou a duas tentativas frustradas de criar uma nova Constituição
O Chile registrou 110 detenções durante manifestações realizadas no domingo (18), em referência ao sétimo aniversário da revolta social de 2019. Segundo o balanço divulgado pelas autoridades chilenas nesta segunda-feira (19), 14 policiais e quatro civis ficaram feridos durante os atos, que também foram marcados por barricadas, confrontos e ataques contra veículos do transporte público.
O ministro da Segurança Pública, Martín Arrau, e o diretor-geral dos Carabineros, Marcelo Araya, apresentaram os números da operação. Do total de detidos, 99 foram registrados na Região Metropolitana, que inclui a capital, Santiago. As autoridades também informaram que cerca de 5,1 mil policiais foram mobilizados para acompanhar as manifestações.
Protestos terminam em confrontos e ataques a ônibus
O balanço oficial contabilizou 43 ocorrências relacionadas à jornada, número 45% inferior ao registrado no ano anterior. Apesar da redução, as detenções aumentaram 41% em comparação com 2025, segundo o ministro. Entre os episódios registrados estavam 23 manifestações ou aglomerações, 11 barricadas, oito ocorrências de violência e um saque.
Um dos casos mais graves ocorreu na comuna de Pedro Aguirre Cerda, na região metropolitana de Santiago, onde um grupo de encapuzados interceptou e incendiou um ônibus do transporte público. Segundo informações divulgadas pela imprensa chilena com base nos relatos das autoridades, o veículo estava sem passageiros e seguia para uma garagem. O motorista foi obrigado a descer e não sofreu ferimentos graves.
Também houve uma tentativa de saque a um supermercado na comuna de Maipú, frustrada pela intervenção policial. Os registros integram o balanço das ocorrências durante as manifestações realizadas em diferentes pontos do país.
Ao comentar os episódios, Arrau condenou os atos violentos e defendeu a distinção entre manifestações pacíficas e ações criminosas. O ministro classificou os responsáveis pelos distúrbios como autores de atos de “delinquência pura e simples” e afirmou que o direito de protestar não deve ser confundido com a prática de crimes.
110 detenidos en Chile durante las protestas por el aniversario del estallido social
Más de un centenar de personas fueron detenidas en Chile el domingo durante la conmemoración de las protestas del estallido social de 2019. La principal marcha, la primera bajo el mandato del ultraderechista José Antonio Kast, se registró en el centro de Santiago, donde la policía dispersó a los manifestantes con cañones de agua y gases lacrimógenos. Además, 14 policías y 4 civiles resultaron heridos, según las autoridades.
A pesar de que han pasado siete años, muchas de las reivindicaciones de entonces siguen vivas: un modelo económico más igualitario y más derechos sociales.
— DW Español (@dw_espanol) October 19, 2026
Registros mostram manifestações e confrontos durante os protestos no Chile, em referência ao sétimo aniversário da revolta social de 2019 (Vídeo: reprodução/X/@dw_espanol)
Revolta social começou após aumento na tarifa do metrô
A revolta social chilena teve início em 18 de outubro de 2019, após o anúncio de um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô de Santiago. A reação inicial, marcada por ações de estudantes contra o pagamento das passagens, ganhou dimensão nacional e passou a reunir reivindicações relacionadas ao custo de vida, às desigualdades sociais, à saúde, à educação e ao sistema previdenciário.
Nos dias seguintes, os protestos se espalharam pelo país e foram acompanhados por depredações, incêndios, saques e confrontos com as forças de segurança. A crise levou o governo do então presidente Sebastián Piñera a decretar estado de emergência em áreas da capital e a mobilizar militares para atuar na segurança pública.
A mobilização também abriu um período de intensos debates sobre a atuação das forças de segurança e a proteção dos direitos humanos. O movimento reuniu grupos com diferentes reivindicações e posicionamentos, sem uma única liderança ou pauta capaz de representar todos os participantes.
Duas tentativas de elaborar uma nova Constituição foram rejeitadas
A crise política resultou em um acordo entre partidos, em novembro de 2019, para iniciar um processo de elaboração de uma nova Constituição, com o objetivo de substituir a Carta herdada da ditadura de Augusto Pinochet. O acordo foi formalizado por meio da Lei nº 21.200, publicada em dezembro daquele ano.
Em outubro de 2020, os eleitores aprovaram a elaboração de uma nova Constituição e escolheram uma convenção formada integralmente por representantes eleitos para redigir o texto. A proposta resultante, porém, foi rejeitada no plebiscito de setembro de 2022: segundo dados da Biblioteca do Congresso Nacional chileno, a opção contrária ao texto recebeu 61,86% dos votos, enquanto a favorável obteve 38,14%.
Um segundo processo constitucional foi iniciado em 2023, com uma nova proposta, dessa vez elaborada por um Conselho Constitucional. O texto também foi rejeitado nas urnas. De acordo com os resultados divulgados pelo Serviço Eleitoral do Chile (Servel), a opção “Contra” recebeu 55,76% dos votos, enquanto “A favor” obteve 44,24%.
Com os dois resultados, as tentativas de substituir a Constituição vigente não avançaram. Sete anos após o início da revolta social, o aniversário continua sendo marcado por manifestações e debates sobre as reivindicações que levaram milhões de chilenos às ruas em 2019.
