Canadense Anne Carson ganha o Nobel de Literatura 2026
Canadense de 76 anos é a 19ª mulher a receber o prêmio e sucede o húngaro László Krasznahorkai
A escritora canadense Anne Carson, 76 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado pela Academia Sueca na manhã desta quinta-feira (8). A instituição justificou a láurea pela obra “ousada e inventiva” que cria “novas formas para a literatura contemporânea” em diálogo com a tradição clássica. Carson é a 19ª mulher a receber o prêmio.
Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca, comunicou a notícia por telefone. “Nós não tivemos muito tempo para conversar. Ela só teve tempo de me dizer que, no momento, ela está na Islândia ouvindo o vento”, relatou Carlberg. Carson estava surpresa e muito feliz com o reconhecimento.
Quem é Anne Carson
Carson transita entre narrativa, poesia e ensaio, e dialoga apaixonadamente com os clássicos gregos. Conhecida por implodir fronteiras entre gêneros literários, ela reinventa textos antigos com sensibilidade contemporânea. Seu trabalho combina a vocação de classicista e narradora em construções que desafiam a forma tradicional do livro.
O primeiro livro da autora publicado no Brasil foi “O método Albertine”, lançado em 2017 pela Jabuticaba. A obra investiga o desejo a partir de “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust. Sua conversa mais frequente, porém, é com os gregos antigos, que reaparecem em seus textos sob novas roupagens.
“Autobiografia do vermelho” consolidou sua reputação internacional. O romance em versos reinventa a história de Gerião, personagem da mitologia grega, transformando-o em rapaz vermelho, alado e gay do século XX na América do Norte. A obra ganhou duas adaptações teatrais no Brasil: uma de Bruno Siniscalchi, em 2024, e outra de Daniela Thomas, prevista para o início de 2026.
A escritora avessa a entrevistas
Carson é avessa a entrevistas. Em 2013, confessou ao New York Times uma experiência ruim com um perfil na imprensa, e desde então protege seu tempo. Ocasionalmente responde perguntas por escrito, oferecendo respostas de densidade fascinante.
Ao ser perguntada pelo The Guardian sobre sua definição pessoal de poesia, respondeu com uma metáfora que se tornaria memorável:
“Se prosa é uma casa, poesia é um homem pegando fogo atravessando bem rápido a casa.”
Em abril de 2026, Carson concordou em responder três perguntas do GLOBO sobre “Vidro, ironia e deus”, obra de 1995 recém-lançada no Brasil pela Relicário. Quando questionada sobre por que o diálogo com outros autores funciona como catalisador de sua literatura, respondeu:
“O pensamento começa com frases para mim. Frases dos outros geralmente são melhores, porque são inesperadas.”
Trajetória literária
Carson estreou na literatura em 1986 com “Eros, o doce-amargo”, resultado de sua tese de doutorado. O livro apresenta as características centrais de sua obra: investigação da natureza do desejo e trânsito fluido entre gêneros, recusando as categorias tradicionais.
Em 2012, publicou tradução de “Antígona”, de Sófocles. A edição brasileira chegou em agosto pela Bazar do Tempo. Carson combina vocações de classicista e narradora, reinventando ritmos e vozes do texto original. Sua versão explicita o dilema de Antígona: a lei do Estado versus a consciência individual. Creonte surge como tirano brutal. Uma inovação marca a tradução: o personagem Nick, figura silenciosa que nunca se afasta da ação, questiona sem palavras as escolhas que presencia.
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Canadense Anne Carson ganha o Nobel de Literatura 2026 (Foto: reprodução/Instagram/@portalg1)
Carson é publicada por quatro editoras diferentes no Brasil. Além das já mencionadas, seus títulos incluem “Falas curtas” (Relicário), “A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos” (Bazar do Tempo) e “Sobre aquilo em que eu mais penso” (Editora 34).
Adriana Lisboa, tradutora de “Vidro, ironia e deus”, observa que apesar da erudição densa, a obra de Carson alcança sentimentos acessíveis. A escritora conjuga elementos eruditos a detalhes cotidianos banais, tornando o diálogo com clássicos matéria viva.
“Por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”
Carson é a terceira canadense a vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Antes dela, Saul Bellow foi laureado em 1990 e Alice Munro em 2013. Ela sucede o húngaro László Krasznahorkai na lista de ganhadores do prêmio.
