Ana Lúcia Torre defende sexualidade aos 81 anos e faz reflexão sobre envelhecimento

Atriz de 81 anos fala sobre liberdade conquistada com a idade, critica etarismo no audiovisual e afirma que recomeçar afetivamente é possível em qualquer fase da vida

26 set, 2026

Aos 81 anos, Ana Lúcia Torre defende a sexualidade e os novos amores na maturidade em entrevista à revista Quem. A atriz, que completa 61 anos de carreira em outubro de 2025, critica o preconceito que associa envelhecimento à perda de desejos e afirma que o corpo envelhece, mas a mente, o coração e o desejo não. Ela estreia no filme “Um Tio Quase Perfeito 3” no dia 8 de outubro, interpretando Cecília, mãe do protagonista Tony, vivido por Marcus Majella.

Envelhecimento e sexualidade

No longa, Cecília é mãe de um homem que reaparece se sentindo abandonado após seus sobrinhos crescerem e se tornarem independentes. A vida de Tony muda quando um bebê é deixado em sua porta. O elenco inclui ainda Letícia Isnard e Danton Mello, sob direção de Pedro Antonio.

“O corpo envelhece, mas a mente, o coração e o desejo não”, afirmou Ana Lúcia Torre à revista Quem.

Para a atriz, representar amor e sexualidade na maturidade é fundamental. Ela critica o preconceito que associa envelhecimento à perda de desejos e possibilidades, uma mentalidade que persiste no audiovisual brasileiro.

Com seis décadas de trajetória no cinema, teatro e televisão, Ana Lúcia carrega uma história de transformação pessoal. A passagem do tempo, segundo ela, trouxe mais liberdade tanto na vida pessoal quanto na escolha de personagens. Mãe e avó, a atriz observa como essa nova fase da vida se reflete em suas escolhas profissionais.

A vida amorosa de pessoas com mais de 70 anos é raramente representada em cinema e televisão. Ana Lúcia critica a mentalidade que considera pessoas após os 60 como velhas, associando a velhice a estereótipos: mulheres fazendo tricô, homens vendo televisão. Essa visão, porém, está mudando muito lentamente, avalia.

Quanto maior a alegria de viver, maior o prazer de estar com outras pessoas, reflete. O prazer de observar a natureza, de ver o ciclo da vida, e o entusiasmo com a vida e os amigos diminuem o envelhecimento. Ana Lúcia deseja que o público veja em Cecília uma mulher atenta à família, aos netos e aos filhos.

“Eu tenho hoje uma liberdade na minha vida maior do que tinha, por exemplo, aos 40”, revela a atriz.

Aos 40 anos, Ana Lúcia enfrentava muitas responsabilidades: trabalho, criação de filho e casa. Fez tudo sozinha e frequentemente se viu presa a obrigações, deixando de lado o que gostaria de fazer. Hoje, com carreira consolidada, filho criado e netos já grandes, a situação é outra.

Essa consolidação profissional permitiu escolhas diferentes. Com uma carga de trabalho já estabelecida, Ana Lúcia tem mais liberdade para selecionar os personagens que a interessam. O acesso a oportunidades diferentes tornou-se mais fácil, e ela pode se permitir coisas que antes não se permitia.


Ana Lúcia Torre faz parte do elenco do filme “Um Tio Quase Perfeito 3” (Foto: Daniel Chiacos /H2O Films)


Atriz diz não pensar em parar de trabalhar

Ao longo de 61 anos de carreira, Ana Lúcia navegou entre comédia, drama, farsa e musical. Gostaria de interpretar uma dona de bordel chique, personagem que receberia clientes com elegância e defenderia suas meninas. Um papel que ainda a atrai.

A comédia sempre foi sua ferramenta favorita. No teatro e na televisão, ela pegava personagens hilários e os tratava muito seriamente. O teatro, acredita, é espelho do que se faz na vida. Um personagem cômico permite mostrar ao público coisas sérias e difíceis de enfrentar. Quando faz o público rir, simultaneamente o faz refletir sobre a situação.

Em O Outro Lado do Paraíso, interpretou uma mãe amorosa de um filho gay que pregava ser muito macho. No teatro clássico, fez Arsênico e Alfazema, peça em que duas senhoras matam pessoas que acham estar sozinhas e sem proteção. O humor permitiu que a plateia refletisse através do riso. Fazer comédia é muito difícil, e é o que Ana Lúcia mais adora fazer.

O personagem Débora, de Alma Gêmea, fez história. A novela foi ao ar há aproximadamente 22 ou 23 anos, mas Débora continua circulando nas redes sociais em situações diferentes, envolvendo política e temas sociais. Ela se tornou símbolo para criticar e fazer gozação sobre fatos da realidade.

Ana Lúcia adora virar meme. Recebe novos memes da Débora no celular frequentemente e se sente lisonjeada, acarinhada e grata ao público que não esquece da personagem. Débora era alguém de quem as pessoas riam muito. Uma pessoa parou com ela na rua, no Flamengo, para dizer que corria para casa para ver o que Débora ia aprontar.

Aos 81 anos, Ana Lúcia está fazendo um monólogo que estreou em outubro de 2025 com agenda marcada até julho de 2027. Isso prova que um ator depois dos 80 pode fazer muita coisa. Exemplos não faltam: Ary Fontoura, Suely Franco, Othon Bastos, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg. A sociedade está começando a mudar, mas ainda existe a crença de que pessoas depois dos 60 são velhas.

“Nada, por enquanto, me faz pensar em parar”, afirma Ana Lúcia Torre.

A geração de Ana Lúcia está provando que não precisa ficar em casa. É necessário ir para a luta. Se não pode trabalhar, existem grupos de ginástica, leitura, auxílio a entidades filantrópicas. Há infinitas coisas a fazer. Estar com a cabeça jovem mantém a pessoa sempre jovem.

Ana Lúcia continua trabalhando enquanto muitos profissionais de sua geração estão afastados. Tem fonte que não seca, diz. Precisa ficar atenta ao corpo e fazer exercícios, pois o corpo enferruja. Lubrificando o corpo, fica um pouquinho melhor. Se a cabeça está bem e a vontade de viver está bem, por que não continuar?

“Recomeçar afetivamente em qualquer idade? Sim, por que não?”, questiona Ana Lúcia Torre.

Existem vários tipos de relação. Quando jovem, o casamento implica muito em sexo ou só em sexo. Quando mais avançado na idade, a relação tem a ver com companhia, carinho, compreensão, dar risada junto. Não quer dizer que não tenha sexo, mas é óbvio que não é aquele sexo dos 20, 30, 40. Com o passar dos anos, fica-se mais exigente, talvez mais disponível, mas a exigência cria certa distância.

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