Série ‘Monstro’ reinventa crime de Lizzie Borden e propõe resposta para mistério secular

Nova temporada da Netflix transforma caso real sem solução em romance criminal cercado por paixão, violência e uma perigosa rede de cúmplices

17 set, 2026
Ella Beatty como Lizzie Borden | Reprodução/Instagram/@netflix

A quarta temporada da antologia Monstro, criada por Ryan Murphy e Ian Brennan para a Netflix, assume um desafio narrativo diferente dos anos anteriores. Ao contrário de Jeffrey Dahmer e Ed Gein, figuras centrais de entregas passadas da franquia, Lizzie Borden nunca recebeu uma condenação oficial da Justiça pelos assassinatos que a tornaram mundialmente famosa.

Acusada de matar o próprio pai, Andrew Borden, e a madrasta, Abby Borden, no ano de 1892, Lizzie acabou absolvida pelo tribunal no ano seguinte. Desde então, ninguém mais respondeu pelos homicídios, consolidando a história como um dos maiores mistérios não resolvidos da criminologia moderna.

É exatamente no espaço de incerteza deixado pela História que a produção televisiva decide construir sua própria versão dos fatos. Sem demonstrar preocupação em preservar a ambiguidade original do caso, a trama afirma de maneira categórica que Lizzie foi culpada. A narrativa, no entanto, introduz uma grande reviravolta: a protagonista não agiu sozinha. Na ficção, a empregada doméstica Bridget “Maggie” Sullivan surge como sua amante e parceira, atuando diretamente tanto na execução das vítimas quanto no plano para esconder as evidências do crime.

Aliança sangrenta define dinâmica dos assassinatos na TV

Na reconstrução proposta pela série, Lizzie e Maggie planejam e executam juntas as mortes de Andrew e Abby Borden. Antes do duplo homicídio familiar, a produção mostra Lizzie tirando a vida de Bertha Manchester, uma vizinha conhecida por maltratar a empregada doméstica. Esse primeiro ato de violência funciona na estrutura dramática como um ensaio geral para o crime principal, marcando o momento exato em que a personagem deixa de apenas fantasiar sobre a morte e passa a agir.

Em seguida, a dupla tenta eliminar o casal de forma discreta ao servir ostras estragadas. O plano de envenenamento falha quando os dois sobrevivem ao alimento contaminado, levando Lizzie a adotar uma abordagem violenta e direta. Ela desfere o primeiro golpe contra a madrasta, Abby, no quarto de hóspedes da residência. Paralelamente, Maggie inicia o ataque contra o patrão, Andrew, que mais tarde é encontrado sem vida no sofá. Lizzie toma parte ativa nos dois atos, estabelecendo que não atuou apenas como a mente intelectual por trás da conspiração, mas também como executora.


O lançamento da temporada está marcado para 17 de setembro e terá oito episódios contando a história de Lizzie Borden. (Vídeo: Reprodução/YouTube/@omeleteve)


A motivação apresentada ao longo do enredo reúne múltiplos fatores contextuais e psicológicos. Entre eles estão a disputa pela herança familiar, a repressão social imposta às mulheres no final do século XIX, a convivência sufocante com o pai e a madrasta e a morte violenta das aves de estimação de Lizzie. Para a empregada Maggie, a cumplicidade no crime representa uma oportunidade extrema de escapar da posição de submissão diária e dos abusos sofridos no ambiente de trabalho.

Após consumarem as mortes, as duas personagens queimam as roupas manchadas de sangue e alinham os depoimentos para construir álibis consistentes. Ao optar por essa linha narrativa, a produção prefere transformar um mistério histórico em um drama policial romântico. Mais do que recriar os fatos históricos com precisão documental, o roteiro utiliza a brutalidade dos assassinatos para examinar a história de duas mulheres que enxergam na violência um caminho radical para conquistar a liberdade.

Estratégia de defesa e papel da sociedade no julgamento

Mesmo quando a investigação policial concentra os suspeitos em Lizzie, os investigadores não conseguem reunir provas físicas definitivas que a vinculem de forma irrefutável aos crimes. A narrativa audiovisual explora de maneira aprofundada um elemento central do processo real: a incapacidade do público e das autoridades da época em aceitar que uma mulher branca, religiosa e pertencente a uma família de prestígio pudesse cometer atos tão graves.

Lizzie percebe essa limitação sociocultural e passa a usá-la estrategicamente a seu favor. Na versão dramatizada, a personagem Nance O’Neil orienta a acusada a tratar as audiências judiciais como uma performance. Em vez de focar a defesa unicamente em dados técnicos, Lizzie constrói a imagem pública de uma pessoa vulnerável, profundamente abalada pelos acontecimentos e fisicamente incapaz de manusear uma machadinha contra os próprios pais.

O recurso surte efeito prático perante o tribunal. Enquanto a promotoria baseia o caso em indícios circunstanciais, depoimentos confusos e uma suposta arma do crime que não pode ser ligada diretamente às lesões, a equipe de defesa transforma as convenções sociais de gênero em argumento central. Como resultado, Lizzie recebe a absolvição e garante o direito de acessar a herança deixada pelo pai.

A decisão judicial, contudo, não traz a aceitação do público. Embora conquiste a liberdade legal e a autonomia financeira, a protagonista permanece marginalizada pela comunidade local. Os mesmos círculos sociais que não conseguiram condená-la continuam a encará-la como a verdadeira responsável pelas mortes.

O desfecho do processo na ficção reflete os registros históricos reais. Em junho de 1893, um júri composto exclusivamente por homens absolveu Lizzie Borden após cerca de 90 minutos de deliberação. O veredito levou em consideração a ausência de vestígios de sangue nas vestimentas da ré, a falta de identificação conclusiva da arma do crime e o descarte de parte das evidências recolhidas durante a fase de instrução. O caso permanece sem solução nos arquivos policiais até hoje.

Vida após o tribunal e ruptura entre as irmãs

Depois de obter a absolvição formal, Lizzie utiliza parte dos recursos herdados para comprar uma propriedade de grande porte em uma área nobre da cidade de Fall River, ao lado da irmã, Emma. A casa, batizada de Maplecroft, simboliza o padrão de conforto, independência e prestígio social que o pai sempre havia recusado às filhas. A alteração no estilo de vida, no entanto, não afasta a desconfiança popular.

Com o passar dos anos, a relação entre Lizzie e Emma se deteriora completamente, culminando na separação definitiva das duas. Esse desentendimento possui respaldo nos fatos históricos registrados. As irmãs dividiram a mesma residência até o ano de 1905, quando Emma decidiu deixar a casa após atritos recorrentes. Pesquisadores indicam que os conflitos aumentaram devido ao convívio próximo de Lizzie com a atriz Nance O’Neil e às festas frequentes organizadas no local. Após a mudança de Emma, as duas nunca mais voltaram a se comunicar.

Lizzie optou por permanecer na cidade de Fall River até o fim da vida, adotando o nome Lizbeth. Ela morreu em 1927, aos 66 anos de idade, enquanto a irmã faleceu apenas nove dias depois. Apesar do intervalo de décadas desde o julgamento, a opinião pública continuou a associar a imagem da herdeira aos homicídios. A série reforça esse estigma ao apresentar a guilt da personagem como fato consumado no roteiro.

Conexão narrativa com o caso Aileen Wuornos

No episódio final da temporada, o enredo avança quase um século no tempo para inserir a figura de Aileen Wuornos, interpretada pela atriz Sarah Paulson. Condenada pela morte de seis homens e executada pela Justiça norte-americana em 2002, Aileen surge na produção como uma continuação simbólica da trajetória de Lizzie Borden.

Nos momentos que antecedem sua morte, Aileen tem uma visão em que enxerga Lizzie e Maggie chamando por ela. A cena não busca estabelecer um elemento sobrenatural literal, mas sim fechar a tese central defendida pelos autores ao longo dos episódios. A produção argumenta que certas mulheres são transformadas em figuras monstruosas a partir do acúmulo de violências, abusos sistêmicos e da forma como seus atos são explorados pela mídia e pelo público.

A associação entre as duas personagens apresenta um tom provocativo, ainda que aproxime trajetórias históricas com origens e desfechos distintos. Lizzie conquistou a absolvição nos tribunais e viveu até a velhice, tornando-se uma incógnita histórica. Aileen enfrentou o julgamento, recebeu a condenação e acabou executada pelo Estado. Para a estrutura de Monstro, no entanto, ambas integram um mesmo grupo de mulheres cuja conduta violenta quebrou expectativas sociais e ganhou contornos folclóricos.

A sequência de encerramento retoma a questão fundamental que guia a franquia desde a primeira temporada: os monstros já nascem com essa natureza ou são moldados pelas circunstâncias ao redor? A abordagem dos roteiristas indica maior interesse pela segunda hipótese, embora a narrativa evite isentar as protagonistas das escolhas individuais que fizeram.

Diferenças entre a reconstituição da TV e os fatos históricos

A estrutura central do crime exibida na tela corresponde aos dados registrados pelas autoridades em 1892. Andrew e Abby Borden foram assassinados no interior da residência da família no dia 4 de agosto daquele ano. A perícia da época constatou que Abby morreu primeiro, no andar superior da casa, enquanto Andrew recebeu os golpes cerca de uma hora e meia depois, enquanto descansava no sofá. A presença de Lizzie e da empregada Bridget Sullivan no local durante o período dos ataques também é um dado confirmado.

Durante as investigações iniciais, Lizzie apresentou depoimentos confusos e contraditórios sobre onde estava no momento das mortes. Além disso, a polícia descobriu que ela tentou comprar ácido dias antes do crime e queimou um vestido no fogão da casa pouco tempo depois dos assassinatos. Um machado sem cabo acabou localizado no porão do imóvel, mas nenhuma dessas pistas permitiu aos promotores provar a autoria dos golpes. Não havia manchas de sangue nas roupas usadas por ela quando os corpos foram descobertos, e a suposta ferramenta jamais teve relação direta comprovada com os ferimentos das vítimas.


Teaser da atração lançado pela Netflix (Vídeo: Reprodução/Instagram/@ryanmurphyproductions)


Por outro lado, o envolvimento amoroso entre Lizzie e a empregada Bridget “Maggie” Sullivan é fruto de especulação dramatúrgica. Bridget realmente existia, trabalhava para a família e cumpria suas funções na casa no dia dos fatos, mas os investigadores nunca a formalizaram como suspeita ou cúmplice. Não existem documentos ou evidências históricas que comprovem um caso amoroso entre as duas ou o planejamento conjunto das mortes. A produção optou por transformar uma teoria popular sobre a vida privada de Lizzie no motor principal da história.

A inclusão da atriz Nance O’Neil durante a fase de julgamento também constitui uma licença poética do roteiro. Os registros indicam que Lizzie só conheceu a artista anos após a conclusão do processo judicial. Embora tenham desenvolvido uma amizade próxima na vida adulta, Nance não participou da preparação da ré para as sessões do tribunal e não teve relação com a estratégia elaborada pelos advogados de defesa.

A morte dos pássaros da família por Andrew Borden de fato ocorreu na vida real, com o pai torcendo o pescoço das aves sob a alegação de que elas atraíam crianças para a propriedade. Não há, contudo, comprovação de que os animais fossem afetos pessoais de Lizzie ou que o episódio tenha servido de gatilho para uma vingança planejada. Já a tentativa de envenenamento com ostras e o assassinato da vizinha Bertha Manchester constituem invenções criadas exclusivamente para a série de televisão.

No balanço final, Monstro: A História de Lizzie Borden utiliza os fatos históricos conhecidos apenas como ponto de partida, sem o compromisso de entregar uma análise neutra. Ryan Murphy e Ian Brennan optam por uma interpretação dramática, focada nos aspectos mais intensos do caso: Lizzie cometeu os crimes, recebeu o auxílio de Maggie e ambas utilizaram a violência para romper com as limitações de sua época. Trata-se de uma construção narrativa eficiente para a televisão, mas distante de um veredito definitivo. Mais de 130 anos após os fatos, o interesse pelo caso permanece vivo justamente pela ausência de respostas conclusivas.

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