Xuxa usa em NY saia da Carolina Herrera que comprou há mais de 30 anos
Peça adquirida pela apresentadora entre 1991 e 1992 voltou a aparecer na Semana de Moda de Nova York; para Tamara Lorenzoni, a história ajuda a explicar por que o tempo também pode se tornar um atributo de valor no luxo
Xuxa levou para a Semana de Moda de Nova York uma peça que já fazia parte de sua história muito antes de voltar aos holofotes. Durante o desfile da Carolina Herrera, a apresentadora revelou que a saia preta escolhida para a ocasião foi comprada por ela na própria Nova York, entre 1991 e 1992. Mais de 30 anos depois, a peça reapareceu no mesmo universo da moda, acompanhando Xuxa em um momento simbólico para a marca, que completa 45 anos.
Ao lado da filha, Sasha Meneghel, Xuxa contou que a Carolina Herrera está presente em diferentes momentos de sua trajetória, desde a época em que trabalhava como modelo e apresentadora. O reencontro entre a marca e uma peça guardada por décadas acabou criando uma história que vai muito além da escolha de um look.
Para Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas com atuação internacional e especialista em mercado de luxo, o episódio mostra uma característica cada vez mais relevante no segmento: o valor que uma peça pode adquirir quando passa a carregar uma narrativa própria. “Essa saia não é especial apenas porque é Carolina Herrera. Ela tem uma história. Foi comprada pela Xuxa nos anos 90, em Nova York, fez parte da vida dela e agora volta ao mesmo cenário décadas depois. Isso cria uma camada de valor que não está na etiqueta da peça, mas naquilo que ela passou a representar”, afirma Tamara.
A escolha também chama atenção por contrariar uma ideia bastante associada à moda: a de que o desejo está sempre ligado ao lançamento mais recente. No caso de Xuxa, uma peça com mais de três décadas conseguiu voltar ao centro da cena sem precisar ser substituída por uma novidade. “Existe uma diferença entre algo antigo e algo que permaneceu. Quando uma peça atravessa o tempo e continua fazendo sentido para quem a possui, ela ganha permanência. E permanência é um atributo muito poderoso no luxo, porque fala de algo que não depende de uma tendência para continuar relevante”, explica a especialista.
A história ganha ainda outro significado pela presença de Sasha no desfile. Mãe e filha pertencem a gerações diferentes, construíram suas próprias relações com a moda e apareceram juntas em um dos eventos mais importantes do calendário internacional. Enquanto Sasha apresenta sua identidade dentro de uma nova geração da moda, Xuxa chega carregando uma referência que atravessou décadas. “Quando falamos em herança, não precisamos pensar apenas em uma joia ou em uma bolsa que passa de mãe para filha. Existe também uma herança de referências, de marcas, de histórias e de repertório. A Sasha cresceu tendo contato com esse universo e hoje constrói a própria trajetória. É muito interessante ver essas duas gerações ocupando o mesmo espaço, cada uma com sua singularidade”, diz Tamara.
Para a estrategista, é justamente essa combinação entre identidade e memória que pode transformar uma peça em algo mais significativo dentro do mercado de alto padrão. “Uma marca pode criar uma peça muito bonita, exclusiva e desejada. Mas a história que uma pessoa constrói com aquela peça é impossível de replicar. Você pode reproduzir o desenho de uma saia, mas não consegue reproduzir o fato de ela ter sido comprada pela Xuxa em Nova York nos anos 90 e ter voltado para a cidade mais de 30 anos depois. Essa história é singular”, afirma.
O caso também evidencia a força da narrativa de marcas que conseguem permanecer reconhecíveis ao longo das décadas. Carolina Herrera foi fundada em 1981 e completa 45 anos em 2026. A coincidência entre a celebração da marca e o retorno de uma peça adquirida por Xuxa nos primeiros anos de sua trajetória cria uma espécie de encontro entre passado e presente. “É isso que torna esse episódio tão interessante. Temos uma marca celebrando 45 anos, uma mulher que tem uma história pessoal com essa marca e uma peça comprada há mais de 30 anos voltando à cena. Existe continuidade. E, no luxo, continuidade não significa fazer sempre a mesma coisa, mas preservar uma identidade que consegue atravessar o tempo”, afirma Tamara.
Mais do que uma escolha de styling, a saia de Xuxa acabou funcionando como um registro pessoal de sua relação com a moda e com a própria Carolina Herrera. Em um momento em que o mercado discute cada vez mais experiências, identidade e significado, a peça mostra que algumas histórias não perdem valor com o passar dos anos. Pelo contrário: podem se tornar ainda mais raras. “Quando uma peça deixa de ser apenas um objeto e passa a fazer parte da memória de alguém, ela ganha outro significado. O luxo está também nessa capacidade de criar vínculos, construir narrativas e permanecer”, conclui Tamara.
