Espanha escolta imigrantes em Ceuta e instala barreira no mar para impedir chegadas a nado

Autoridades espanholas confirmam que mais de 48 mil dos 50 mil imigrantes que chegaram desde quinta retornaram ao Marrocos; saldo de pelo menos 67 mortes

01 ago, 2026
Migrantes em Ceuta I Reprodução/Instagram/@observador
Migrantes em Ceuta I Reprodução/Instagram/@observador

Neste sábado (1), a Espanha anunciou ter conseguido conter o fluxo de imigrantes em Ceuta. Segundo o governo espanhol, mais de 48 das 50 mil pessoas que entraram no enclave desde a última quinta-feira (30) já retornaram ao Marrocos. A cidade, um território autônomo espanhol situado no norte da África, está quase de volta à normalidade, apesar do saldo de pelo menos 67 mortes registradas durante a crise.

Fernando Grande-Marlaska, ministro do Interior espanhol, confirmou a mudança no cenário. “Quase todos eles já deixaram Ceuta. A situação se inverteu quase completamente”, afirmou o ministro a jornalistas.

Barreira de contenção no mar

Para impedir novas entradas, a Guarda Civil instalou uma barreira flutuante de 500 metros na praia de Tarajal, onde milhares de marroquinos chegaram a nado durante os dias de maior afluxo. A estrutura pneumática, acompanhada por uma linha de boias ancoradas, foi projetada para ficar entre 30 e 70 centímetros acima da água e estender-se até um metro abaixo da superfície. Um canal entre as barreiras permite que embarcações da Guarda Civil patrulhem a região.

Soldados e policiais espanhóis continuam em operações nas praias, escoltando imigrantes que ainda resistem em retornar para o outro lado da fronteira.

O que motivou a travessia

Boatos divulgados nas redes sociais sobre oportunidades na Europa incentivaram muitos a tentar a travessia. A dificuldade econômica no Marrocos foi o fator principal que levou os imigrantes a migrar. Quem chegou a Ceuta, porém, deparou-se com realidade bem diferente da esperada.

Brahim Karroubi, um dos imigrantes que tentou entrar, descreveu sua decepção. “Eu queria ter uma vida melhor, mas aqui só encontrei fome e miséria. Queria me juntar à minha mãe na Espanha. Tudo estava fechado, inclusive os cafés. Um cigarro custava 2 euros, uma baguete custava 3 euros. Isso é demais”, lamentou.

Mohamed, de 27 anos, também optou pelo retorno após perceber a falta de oportunidades. “Vou voltar. Não há nada para fazer aqui. Os habitantes de Ceuta nos trataram mal, estamos com fome. As lojas estão fechadas”, acrescentou.


Centenas de migrantes tentaram nadar do Marrocos até a cidade espanhola de Ceuta, no norte da África (Foto: reprodução/ Anadolu/ Getty Images Embed)


A sensação dos moradores locais

Apesar da volta à normalidade, os habitantes de Ceuta continuam apreensivos. Marina Castano, garçonete, resumiu o sentimento dos locais sobre a situação. “Embora as coisas tenham se acalmado um pouco, Ceuta continua sendo insegura e ainda precisamos da polícia e dos militares, porque isso é um aviso de que eles podem nos invadir quando quiserem”, disse.

Um morador da cidade afirmou que a chegada de 60 mil pessoas em menos de uma hora foi intolerável.

Contexto político e geográfico

Ceuta integra a União Europeia e é um dos únicos territórios do bloco que faz fronteira terrestre com a África. Junto com Melilla, forma um enclave na costa do Mediterrâneo, frente ao Estreito de Gibraltar. Marrocos reivindica a soberania sobre o território há séculos, o que alimenta tensões diplomáticas periódicas.

Para muitos imigrantes, chegar a Ceuta representa a porta de entrada para o continente europeu. A situação geográfica explica por que o local é alvo constante de tentativas de travessia.

Vinte e dois líderes da União Europeia solicitaram uma videoconferência urgente sobre o assunto. Ministros do Interior do bloco se reuniram para debater a crise migratória. A posição europeia é firme: entradas ilegais não podem resultar em permanência legal, e travessias em massa não devem transmitir a mensagem de que é possível contornar as regras de imigração. A barreira funciona como contenção imediata, mas a questão migratória segue como desafio estrutural para a Europa.

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