Ex-diretor do São Paulo é investigado por abrir empresas suspeitas durante gestão

Nelson Marques Ferreira teria constituído 15 empresas quando trabalhou como diretor-adjunto do clube; polícia investiga se há irregularidades em movimentações

12 jan, 2026
Julio Casares | Reprodução/Instagram/@juliocasares_sp
Julio Casares | Reprodução/Instagram/@juliocasares_sp

A Polícia Civil de São Paulo conduz uma investigação que envolve a antiga cúpula administrativa do São Paulo Futebol Clube e apura a criação de dezenas de pessoas jurídicas enquanto um dirigente exercia função estratégica dentro da instituição. O caso ganhou repercussão nacional após reportagem exibida no programa Fantástico e ocorre às vésperas de uma decisão política que pode resultar no afastamento do atual presidente do clube, Julio Casares.

O inquérito tem como um dos principais alvos Nelson Marques Ferreira, que atuou como diretor-adjunto de futebol do São Paulo entre o início de 2021 e novembro de 2025. Segundo a investigação, durante esse período, ele teria constituído ao menos 15 empresas, a maioria vinculada a franquias instaladas em centros comerciais.

As autoridades apuram se essas empresas mantêm relação com movimentações financeiras consideradas atípicas nas contas do clube. A linha investigativa busca esclarecer se houve eventual desvio de recursos ou utilização indevida de valores pertencentes à agremiação esportiva.

Denúncia anônima deu origem à apuração

Segundo a Polícia Civil, a investigação iniciou-se após o recebimento de uma denúncia encaminhada de forma anônima pelos Correios. O conteúdo apontava para a existência de um suposto esquema envolvendo dirigentes do São Paulo, empresas prestadoras de serviço e possíveis vínculos ocultos com franquias comerciais.

O delegado Tiago Fernando Correia, responsável pelo caso, afirmou que a apuração preliminar identificou indícios suficientes para a abertura de um inquérito formal. Segundo ele, os dados iniciais apresentaram semelhanças com outras investigações em andamento no futebol brasileiro, o que reforçou a necessidade de aprofundamento.


Julio Casares e Nelson Marques Ferreira
Julio Casares e Nelson Marques Ferreira são citados em investigação da Polícia Civil (Foto: reprodução/Instagram/@somospfc)

Durante o avanço das diligências, os investigadores identificaram que um dos dirigentes citados na denúncia teria registrado diversas empresas entre 2021 e 2023, o que chamou a atenção dos órgãos de controle. A partir disso, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foi acionado para analisar movimentações bancárias ligadas ao clube.

Os relatórios apontaram a realização de cerca de 35 saques em dinheiro vivo diretamente na boca do caixa, somando aproximadamente R$ 11 milhões ao longo de quatro anos. Para a Polícia Civil, o uso recorrente de numerário em espécie levanta questionamentos sobre a finalidade e o destino desses valores.

Presidente também é citado em relatórios financeiros

Além de Nelson Marques Ferreira, o inquérito inclui a análise das contas bancárias do presidente do São Paulo, Julio Casares, e de pessoas de seu núcleo familiar. Conforme os relatórios do Coaf, foram identificadas movimentações financeiras consideradas fora do padrão em um intervalo de 29 meses, entre janeiro de 2023 e maio de 2025.

No período, embora Casares recebesse salário mensal de pouco mais de R$ 27 mil do clube, suas contas registraram movimentações superiores a R$ 3 milhões, com média mensal em torno de R$ 110 mil. Parte desse montante teria origem em depósitos em dinheiro.

A defesa do presidente nega qualquer irregularidade. Segundo o advogado Bruno Borragini, não existe vínculo direto ou indireto entre os saques realizados pelo clube e os valores depositados nas contas pessoais de Casares. Ele sustenta que os recursos têm origem em atividades privadas anteriores e que não havia poder decisório do presidente sobre a execução financeira dos saques investigados.

Enquanto a investigação segue em andamento, o São Paulo Futebol Clube é tratado formalmente como possível vítima. Paralelamente, o ambiente político interno se intensificou. Um grupo de conselheiros protocolou pedido de convocação de reunião extraordinária para deliberar sobre o impeachment de Julio Casares, cuja votação está marcada para a próxima sexta-feira, no estádio do Morumbis.

A Polícia Civil continua apurando as circunstâncias das movimentações financeiras, a destinação dos valores sacados e a eventual responsabilidade dos envolvidos.

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